1 de março de 2012

Inflação ou Deflação?

Caros leitores e leitoras, com a ajuda do Eurostat e do Financial Times é possível perceber qualquer coisa sobre esta história da inflação e da deflação nos tempos que correm.

O gráfico mostra a criação de dinheiro na zona euro, tanto pelo BCE (M3) como pelos bancos privados, sob a forma de crédito. Esta "criação" de dinheiro pode ser feita de duas maneiras:
Ou por "Fractional Reserve Banking", que permite ao banco mostrar o mesmo dinheiro duas vezes, de um lado como sendo emprestado à pessoa X, do outro como sendo um depósito da pessoa Y.
Ou pelos bancos centrais, que imprimem dinheiro para emprestar aos bancos.


Se a economia prospera significa que há mais transacções e em maior volume, logo a expansão monetária tende a aumentar através dos 2 mecanismos anteriormente descritos para dar suporte a essa prosperidade. Desta forma tenta-se equilibrar a quantidade de dinheiro com a quantidade de bens postos à disposição da economia.
Mas nem sempre é assim. Se por acaso houver mais recursos que dinheiro, o preço desses mesmos recursos tenderá a descer - deflação. Se for ao contrário, mais dinheiro que recursos, o preço tenderá a subir - inflação.

No gráfico percebe-se que até inícios de 2008 os bancos privados europeus e o banco central europeu (M3) trabalharam a todo o vapor. Emprestavam ano após ano 8 a 14% mais do que ano anterior. Esta taxa era bem superior à taxa de crescimento da economia, que não ultrapassava os 3 a 4%, criando as raízes para o aparecimento da inflação. Toda esta bebedeira financeira estava fortemente ligada às baixas taxas de juro que os bancos centrais mantiveram durante alguns anos, nomeadamente a Reserva Federal e o BCE, como forma de forçarem as economias a crescer pela abundância de crédito. Ainda hoje a sabedoria convencional trata este assunto da mesma forma - é preciso crédito fácil e barato para a economia crescer. Já deveriam ter percebido nesta altura que o processo é inverso - só com a economia a prosperar é que o crédito pode avançar.

Todos estes estímulos "keynesianos" que jorraram durante anos acabaram por colocar as economias recessivas sob ainda maior stresse. Porquê?
Porque os recursos oferecidos à economia não aumentaram de sobremaneira ou se calhar até reduziram, mas o dinheiro para os adquirir cresceu numa proporção desmedida. Resultado:
Dinheiro a mais para recursos a menos - inflação.

Esse "muito" dinheiro de que estamos a falar continua hoje a ser criado mas em muito menor quantidade, na medida em que os bancos desconfiam muito mais uns dos outros e as economias ocidentais teimam em não arrancar. O facto relevante no meio disto tudo é que o dinheiro já não "transpira" para a sociedade, ou seja, não se revela sob a forma de aumento de salários, aumento de emprego e por aí fora. E porquê? Porque os banqueiros obtêm o dinheiro do BCE, que é a única instituição disposta a emprestar sem contrapartidas, mas em vez de "entregarem" o dinheiro nas economias preferem investir em ações, em petróleo, em dívida soberana (sobretudo a alemã) e noutros produtos financeiros mais ou menos arriscados. O gráfico evidencia bem este fenómeno de contração do crédito, sobretudo a partir de 2008.
E assim ficamos nesta situação em que as populações vêm o seu poder de compra duplamente reduzido, tanto pelo não aumento de salários, como pelo aumento generalizado dos preços dos bens de primeira necessidade, que foram objeto de manipulação pelos banqueiros nos grandes mercados internacionais

Mesmo assim, ainda há economistas que afirmam que havendo recessão e deflação, não há grande mal em imprimir dinheiro para compensar essa quebra. Infelizmente a realidade mostra-nos que com a contração do consumo ocorre também... a contração na produção. Por exemplo, se há menos gente a "consumir" petróleo, é natural que as refinarias baixem a sua produção, ou então se há menos consumo de hortaliças, é natural que os produtores reduzam a sua produção. Até é plausível que o primeiro passo dos empresários seja baixar preços para tentar manter os níveis das vendas, reduzindo margens e custos de produção. Mas se o consumo continuar a cair mesmo com abaixamento de preços, não há outra hipótese senão reduzir produção, despedir pessoal e no extremo declarar falência. Passando a haver menos produtos no mercado o preço tenderá a subir. Se os produtos desaparecem a uma taxa maior do que o dinheiro que os persegue, o preço dos mesmos terá que subir.

Desta forma percebe-se que é possível ter em simultâneo inflação e recessão económica, sobretudo se a expansão monetária for uma realidade, o que é o caso actual.
A própria inflação é inimiga do crescimento económico, na medida em que promove contração do consumo e logo de seguida contração na produção. Parece um ciclo vicioso.

Os dados publicados pelo eurostat esta semana dizem-nos que a par da recessão que se vive na periferia europeia a inflação teima em não descer para níveis compatíveis:


Portugal continua com uma inflação de 3,4%, mesmo com toda a quebra que houve no imobiliário, no consumo privado e no público. Inclusivamente a inflação subiu 0,3 por cento de Dezembro 2011 para Janeiro 2012, conforme se percebe pela última coluna.

Mas veja-se o caso da Grécia:
Recessões sucessivas desde 2008;
Contração total do PIB já de quase 20%;
Desemprego bem acima dos 20%;
... e continua com uma inflação de 2%!!
Não fossem os estímulos financeiros que o BCE dá e há muito que este país tinha entrado em deflação. Ao menos os gregos veriam os preços dos bens a baixar, o que já era uma ajuda para compensar a queda dos salários e dos subsídios de desemprego.

Se a impressão de dinheiro aumentar e se os bens à disposição da economia encolherem, a inflação continuará a existir.
Caso a impressão de dinheiro se torne massiva e os bens cada vez mais escassos, aí podemos caminhar para a hiper-inflação. Veremos em que ponto é que os políticos param, se é que pararão em alguma circunstância.

Como esta impressão de dinheiro é um fenómeno à escala planetária, pouco pode fazer o "Portugal dos pequenitos". Mas ficar calado e aceitar este estado de coisas é que é imperdoável.

Tiago Mestre

2 comentários:

Vivendi disse...

Muito bem Tiago. O seu blog merecia ser bem divulgado. Um pormenor importante a ter em conta é a inflação pela via petróleo e das matérias-primas decorrente da desvalorização da moeda. O que lhe parece este fator? Cumprimentos.

Tiago Mestre disse...

Vivendi, agradeço-te mais uma vez os comentários e o apoio que dás no teu blog ao que escrevo no Contas..

Eu acredito que a desvalorização da moeda é o somatório das perceções dos investidores que decidem diariamente se comprem e usam determinada moeda ou não, com base no comportamento dos líderes que gerem essa moeda. Se o investidor ficar com medo de que a moeda está sendo depreciada, então o melhor é trocá-la por algo que não seja suscetível de tal manipulação/depreciação. Hoje em dia é possível comprar e vender quase tudo quanto mexe e não mexe.
Jim Rogers tem canalizado os seus investimentos para comprar arroz, chumbo, petróleo, terra, ouro, prata. Ele não deseja ficar nem com arroz nem com chumbo no seu quintal em Singapura. O que ele quer é comprar hoje "future contrats" e vendê-los amanhã, realizando lucro. Como ele há outros que na última década "desviaram" o dinheiro para estes bens/matérias primas essenciais ao povo.
Por um lado temos os bancos centrais a imprimir dinheiro que será usado pelos bancos privados para comprar petróleo e matérias primas, por outro temos muitos investidores que fogem da moeda e põe-se a comprar também estes bens, tipo Jim Rogers. É muito dinheiro a perseguir os mesmos recursos - inflação..

E se o petróleo e as matérias primas (cobre, zinco, prata, ferro, etc) sobem de preço, TUDO sobe de preço. Abraço