Queremos com este post informar os leitores e as leitoras daquilo que foram as contas públicas portuguesas na segunda e terceira décadas do século XX e algumas analogias que se podem formar com os dias de hoje.
Não queremos fazer nenhuma apologia nem preferência dissimulada a qualquer um dos regimes. Pretende-se tão só analisar os números e percebermos se o que se fez na altura e pode ser comparável com o que se tem que fazer hoje.
As contas públicas em quase toda a década de 20 do século XX refletiram défices públicos permanentes, complementadas por impressão monetária, emissão de bilhetes do Tesouro e saldos negativos crescentes na conta corrente da Caixa Geral de Depósitos.
Ano de Gerência: Défice Público | Circulação Fiduciária | Bilhetes tesouro | Saldo negativo na CGD
Valor anual Somatório Somatório Somatório
1920-1921 -188 mil contos 611 mil contos 82 mil contos 131 mil contos
1921-1922 -190 737 201 156
1922-1923 -501 1054 261 269
1923-1924 -228 1420 246 269
1924-1925 -243 1763 270 235
1925-1926 -122 1821 566 504
1926-1927 -642 1854 1042 539
1927-1928 -181 1857 1103 629
As políticas praticadas no período aqui referido, bem como nos primeiros 10 anos da República e nos 80 anos de Monarquia Constitucional assemelham-se em muito às que foram aplicadas na nossa democracia desde o 25 de Abril:
Déficits constantes;
Impressão de moeda e
Emissão de bilhetes de Tesouro
A inflação era galopante e reinava a desordem no Ministério das Finanças. Sacrificava-se o futuro a troco da salvação do momento, evitando a todo o transe a execução de reformas estruturais que o país e o Estado exigiam.
Com a mudança de regime e a entrada de Salazar para a pasta das finanças, o Estado passou a acusar saldos positivos: contrariavam-se assim décadas de deficit.
Ano da Gerência
Défice Superavit Público
1928-1929 +275 mil contos
1929-1930 +40
1930-1931 +152
1931-1932 +150
1932-1933 +84
1933-1934 +130
1934-1935 (18 meses) +317
1936 +228
1937 +212
1938 +241
1939 +134
Toda a década de 30 foi, em termos económicos, bastante má.
O PIB pouco cresceu e as receitas públicas estagnaram. A única forma de manter as contas em ordem era manter um nível de despesa inferior à receita, impondo rigor, disciplina e austeridade aos restantes ministérios.
Receitas totais
1928-1929: 2.057 milhares de contos
1939 2.218 milhares de contos
É interessante analisar os rácios e as grandezas utilizadas na época e agora:
Não havia referência ao défice em função do PIB nem ao PIB em si. As contas do Estado eram tratadas de forma elementar: despesas
versus receitas.
E o que fez Salazar para equilibrar o orçamento de 1928-1929?
1927-1928 1928-1929
Receitas: 1.554 1.919
Despesas: 1.943 1.917
Basicamente, aumentou as receitas (aumento de impostos e reorganização da coleta) e manteve as despesas.
Conseguiria Salazar fazer hoje aquilo que fez há 90 anos?
Duvidamos muito.
Do lado da receita:
Na época o Estado ocupava não mais de 5-7% da economia portuguesa. Mexer assim nos impostos e na coleta não trouxe consequências gravosas para a economia em geral.
Hoje o Estado ocupa 51% da economia e os impostos representam 41%.
Aumentar hoje os impostos como se fez há 90 anos nunca traria as receitas previstas. A economia arrefeceria imediatamente, criando recessão e redução da massa coletável. Basicamente, por muito que se aumentem os impostos já não há economia aonde ir buscar esse dinheiro. Ou foge para a economia paralela ou eclipsa-se simplesmente.
Do lado da despesa:
À época, Salazar apenas tinha que se preocupar com as despesas da República, ou seja, gastos dos ministérios. Não havia reformas nem subsídios de desemprego para pagar, e não gozava de uma pirâmide demográfica altamente desfavorável.
Hoje a maior rúbrica de despesa são as contribuições para a Segurança social, ou seja, dinheiro que é entregue a pessoas que sem ele não possuem condições quase nenhumas de sobrevivência. E se se quer baixar despesa é nesta rúbrica que se tem que mexer, acima de todas as outras.
O Estado que temos hoje, fruto de sucessivos governos impelidos em garantir maior segurança social à população e baseando-se em receitas que se esperava crescerem até ao infinito, criou uma armadilha às próprias contas do Estado que seria ativada quando o PIB deixasse de crescer 2-3% ao ano:
1. Se se reduz despesa, cria recessão
2. Se cria recessão, reduz receita.
3. Se reduz receita, tem que reduzir despesa, perpetuando o ciclo vicioso
O ciclo só parará quando o PIB cair talvez 30, 40 ou 50% face aquilo que é hoje. Não esquecer que o da Grécia já vai em 20-25% desde 2008.
O que os políticos mais desejam é que as economias voltem a crescer para evitar esta correção, e com isso não querem perceber que as economias ocidentais estão hoje sem a energia que outrora possuíam: agricultura, indústria e recursos naturais abundantes.
É esta dissonância cognitiva da classe política que gera o logro de espectativas na população e consequente descredibilização das elites pela sociedade.
Tudo aquilo que conhecemos hoje como direitos e garantias dos cidadãos assegurados pelo Estado
serão uma fracção num futuro bem próximo.
O ciclo só parará quando a produção igualar o consumo.
E todos nós sabemos como o consumo descolou da produção nas últimas décadas. A regressão já começou.
Tiago Mestre
Fonte: A Obra de Salazar na pasta das Finanças, Edições SPN (Secretariado da Propaganda Nacional), Lisboa, 1941.