8 de junho de 2012

Deus ex machina (Parte 2)

Referente ao post "Deus ex machina" que publicámos ontem, 7 Junho, surgiu um comentário interessante que colocava em questão a nossa tese de que se o salário é o preço do trabalho, e se o mercado funcionar nesta matéria, a produtividade deve estar diretamente correlacionada com o salário.
Apresentámos um gráfico do INE que referenciava que a nossa produtividade por hora trabalhada é sensivelmente metade da da Alemanha, logo o salário deles deveria ser sensivelmente o DOBRO do nosso.

Contudo, o vivendi apresentou um quadro num post do seu blog a 5 Junho que revela que o salário médio alemão é superior em mais de 4 VEZES face ao português. Esta correlação de 4x não bate certo com a nossa tese de ser apenas 2x mais.

A questão é espetacular e muito gostaríamos de saber responder, mas não sabemos em concreto.
O Vivendi avançou com algumas ideias que com as quais estamos de acordo:

- O valor acrescentado do produto na Alemanha é superior ao de Portugal
- Financiamentos/juros são custos que temos de suportar e que nos roubam dinheiro
- Custos de produção eventualmente mais elevados
- Balança comercial deficitária, o que significa que parte do nosso rendimento desaparece para pagar ao exterior o que precisamos dele
E acrescentaríamos nós:
- os impostos, que também usurpam parte dos nossos rendimentos.
- no quadro do vivendi não se sabe os percentis, ou seja, não sabemos quantas pessoas cabem nos percentis inferiores ou superiores. Isto porque o valor médio pode esconder informação.
- espanta-me o salário médio na Alemanha ser o dobro do da Holanda ou da Áustria

Mas em boa verdade não sabemos o peso relativo de cada uma destas rúbricas, e se é que há outras que faltam aqui e que também são importantes.

Mas para não deixar o assunto sem resposta, fomos ao Eurostat e sacámos da lá o PIB per capita em PPP (purchasing power standards), que significa o poder de compra por indivíduo harmonizado e comparável com outros países:

Este gráfico já nos informa com mais detalhe o real rendimento obtido por pessoa, sendo que o salário é sempre uma função aproximada do rendimento. Os valores já estão mais próximos com o que julgamos ser o adequado, sendo que neste caso o PPP alemão é 1,48 vezes superior ao português. Ainda está longe de ser o dobro, ou por pressão deflacionista dos salários na Alemanha (que parece que ocorreu na década anterior), e/ou por pressão inflacionista em Portugal, tese para a qual nos inclinamos mais, devido ao falso poder de compra que ainda vigora mas que tenderá gradualmente a desaparecer por causa da contração de crédito que já vigora.

Pelos vistos o mercado do trabalho ainda está longe de ser perfeito. Ele bem que luta diariamente para atingir o tal preço perfeito, mas a manipulação não lhe dá tréguas.

Tiago Mestre

Petróleo desce... e bem. Veremos até quando!

Caros leitores e leitoras, temos assistido ultimamente a uma queda constante do preço do petróleo no mercado de Brent em Londres, que é a referência para o nosso país.



Desde 2009 que os preços têm subido consistentemente, mas o "salto" deu-se mesmo a partir de Setembro 2010. As confusões na Tunísia, Egito e Líbia enervaram toda a gente e os investidores aproveitaram a boleia. O encerramento da produção de petróleo na Líbia em Fevereiro de 2011 fez os mercados entrarem em total frenezim. Por outro lado, o consumo de petróleo no mundo ocidental e oriental continuava a exigir muita produção, o que retirava elasticidade ao mercado: tudo quanto se produzia já tinha destino. 2010 foi para muitos o início da recuperação económica mundial, e antecipando esse cenário, decidiram investir fortemente.
Como o crescimento económico não foi nem bom nem mau, os investidores foram adiando as suas decisões de comprar ou vender. A classe política foi sempre fazendo o jogo de "extend and pretend", anunciando medidas e mais medidas de estímulo ao crescimento, tanto no ocidente como no oriente. Com tanto estímulo mundial, era difícil de acreditar que a economia não subiria qualquer coisa.

Mas a realidade desta vez impôs-se mesmo, porque parece que o crescimento REAL de riqueza já é quase imune aos estímulos ARTIFICIAIS que a classe política julga possuir, e nas últimas semanas assistiu-se a uma degradação nos indicadores económicos do mundo inteiro.

As notícias da Europa continuam a deixar o mundo à beira de um ataque de nervos por causa da farsa que cá vigora. Já não são só os países intervencionados que estão em recessão. Aliás, são poucos que ainda crescem qualquer coisa. A redução no consumo de petróleo é certamente uma realidade a nível europeu.

Os EUA, o grande motor desta recuperação económica mundial, parece que gripou. Os dados publicados nas últimas semanas vêm confirmar que a economia está sem força para dar o salto mesmo com o Estado a bombear "sangue" a toda a força (10% défice ao ano) para ver se organismo arrebita. Os investidores começam a perceber que tudo não passou de uma farsa gigantesca em que os políticos foram os atores principais. A intervenção estatal na economia americana foi sem precedentes, tendo o dólar sido impresso em excesso, o que também fez estragos na formação de preços no mercado do petróleo -mais dólares a competir pelo mesmo petróleo - como já várias vezes escrevemos aqui no Contas.

Mas até ontem ainda havia uma réstia de esperança com as potenciais declarações de Ben Bernanke acerca da introdução de novos estímulos na economia americana. Tal não foi anunciado e o pessoal foi-se ainda mais abaixo. Sabemos que os investidores são hoje mais "descobridores" de preço do que outra coisa qualquer, e com tanta manipulação política nos mercados mundiais, a sua tendência é de ficar à espera das declarações da classe política. Ainda é este grupo de investidores (especuladores forçados) que faz pular alguns indicadores económicos quando são anunciadas medidas de estímulo, porque a economia em si, essa já está vacinada contra esta doença que se chama Keynesianismo.

Sabemos que não há um preço máximo para o fornecimento petróleo, mas a história da formação de um preço mínimo já não é bem assim. A OPEC, por produzir mais de 40% do petróleo mundial, tem uma arma espetacular para não deixar o petróleo baixar muito: fechar a torneira.

Acreditamos profundamente que é isso que tentarão fazer daqui para a frente. A Arábia Saudita tem muitos subsídios para pagar à população através das receitas das exportações.
Outros países estão comprometidos com tecnologias de extração de petróleo que só são economicamente viáveis se o preço não baixar dos 80 dólares o barril, como as tar sands no Canadá, a extração a grande profundidade nos oceanos ou a última extravagância na delapidação dos recursos naturais do planeta: o shale oil nos EUA. Podem procurar na net e perceber tudo o que envolve esta nova tecnologia de fracking.

A complementar a política de não baixar muito o preço dos países exportadores, acreditamos que os políticos voltarão brevemente a atacar em força na impressão de dinheiro à escala mundial. As fracas pespetivas de crescimento mundial tornam insustentável o modelo económico vigente, e tudo farão para contrapor esta realidade. Na nossa opinião, as economias não crescerão e o petróleo subirá de preço, saindo o tiro totalmente pela culatra aos keynesianistas de serviço.

Ainda ontem o diretora geral do FMI apelava aos líderes mundiais que se fechassem numa sala até encontrarem uma solução. É este o pensamento que vigora: a malta senta-se e por milagre encontram uns triliões escondidos numa gaveta que ninguém ainda se tinha lembrado que existia. É pura quimera e charlatanice politica.

Mesmo com uma redução na procura mundial de petróleo, é possível este continuar a subir de preço desde que:
1. A oferta de petróleo caia mais depressa do que a procura,
2. A impressão de dinheiro compense a quebra na procura, ou seja, mais dinheiro a entrar nas contas dos investidores (especuladores forçados) por injeção do FED do BCE e outros, para especularem nos mesmo mercados de onde o dinheiro REAL está a sair (o teu e o meu dinheiro por estarmos a fazer menos quilómetros diariamente).

Pensamos que seja esta segunda opção, complementada com a política de cartel da OPEC em fechar a torneira que obrigará no médio prazo (não sabemos quando porque é tudo uma questão politica) os preços do petróleo a regressarem a valores que prejudicam ainda mais a economia.

Mas mesmo que esses preços elevados retornem, acreditamos que não seja por muito tempo, na medida em que as economias mundiais, sobretudo as ocidentais, andam a arrefecer há já muito tempo e as orientais só crescem por terem começado de um ponto de partida muito baixo e estarem já a imprimir forte e feio, como é o caso da China para manter taxas de crescimento acima de 7%.

Não acreditamos mesmo que haja dinheiro nas economias fortemente importadoras, como Portugal, para continuarem a comprar petróleo a 100, 120, 150, 200 ou 1000 dólares o barril para todo o sempre, como forma de manter o seu crescimento económico. A meio caminho disto tudo as economias terão mesmo que dar um trambolhão.
O petróleo a 200 dólares o barril só será para alguns, e não para o comum mortal.

Tiago Mestre

7 de junho de 2012

Afirmações que valem ZERO

Na edição online do Expresso

Christine Lagarde, diretora do FMI:
"Fechem os políticos numa sala até que concordem num plano"

Ó mulher, diz-nos tu, que ainda há um ano eras politica de profissão, onde vão os políticos arranjar o dinheiro?

Talvez o melhor plano seria mesmo mantê-los fechados lá dentro mas por tempo indeterminado, exigindo às sociedades refundarem-se sem a "ajuda" desta gente.

Tiago Mestre

Ator simula enforcamento ao vivo como metáfora das dívidas que a Câmara deve à sua Companhia

Foi hoje notícia, com vídeo e tudo:

Na Póvoa de Varzim, um ator que interpretava uma peça de teatro simulou um enforcamento.
Após discursar aos espectadores das dificuldades financeiras que a companhia vive por falta de pagamentos da Câmara Municipal da Póvoa, simulou um enforcamento, e perante o realismo da situação, a sala ficou meio sem saber o que fazer. Os bombeiros vieram imediatamente e levaram o "enforcado" de maca para fora da sala. (estava tudo combinado)

Esta simulação serve de metáfora perfeita para o que se passa de forma generalizada nas relações contratuais entre empresas/instituições em Portugal: o cliente paga quando lhe apetece e não percebe os danos que está a causar ao credor pela incerteza e pelo atraso no ressarcimento.

Podemos afirmar que não pagar conforme acordado também é matar.

Não pagar, fazer-se de esquecido e pedir o serviço à mesma revela o equívoco cultural que se está a viver no Portugal "civilizado" de hoje.

Estado, câmaras municipais, empresas públicas e muitas empresas privadas brincam e brincaram com os seus fornecedores durante décadas ao não pagarem a tempo e horas. É uma regra básica de decência que ficou esquecida desde que a democracia entrou em força e gente irresponsável começou a ter poder a mais para as suas capacidades intelectuais.

Na nossa vida empresarial deparamo-nos frequentemente com estas atitudes e só lamentamos que com o agudizar da crise este tipo de comportamentos tenda a aumentar.
A crise faz-nos ter medo, e "libertar" o dinheiro, mesmo que já tenha destinatário, é sempre uma coisa que "custa" fazer, sobretudo para os pobres de intelecto.

1.  Se o cliente não tem dinheiro não pode pedir o serviço;

2. Se a Câmara não tem verba para pagar à Companhia tem que convocar uma reunião, pagar o que deve e revogar o contrato e assumir essa posição;

3. Se o Estado não tem dinheiro para pagar a professores, a banqueiros, a pensionistas, a médicos, a desempregados, às empresas de transporte e outras, tem que o afirmar de plena voz e assumir essa posição. Só assim é que somos gente séria e nos tornamos respeitados aos olhos dos outros.

4. Se a Europa não tem dinheiro (e que não tem mesmo) para resgatar as gigantescas asneiras que bancos e governos perpetraram  durante anos, então tem que informar a comunidade deste facto e adaptarem-se desde já a esta nova realidade.
O BCE não tem riqueza nenhuma, ao contrário do que diz por aí, e os governos estão cheios  de dívidas, mesmo o alemão.

Não esquecer que muitos diretores e diretoras financeiras destas instituições que se "esquecem" de pagar são licenciados em muita coisa, com MBA's, doutoramentos e mais o raio que os parta, desculpem-nos a expressão.
É que a decência e o respeito não se aprendem na escola.

 Manter a paz podre, que nós aqui no Contas tanto abominamos, e que é tão acarinhada pelos políticos cobardes da nossa praça, é que não pode ser!

São precisos muitos mais enforcamentos metafóricos como este para ver se a malta acorda para a realidade. Na Grécia já passaram essa fase: o pessoal mata-se mesmo!

Tiago Mestre

CP carregou ainda mais no acelerador em 2011...

A propósito de 2 posts que publicámos aqui e aqui sobre as contas das empresas públicas, decidimos complementar essa informação com as contas da CP para o ano de 2011, que chegaram mesmo agora às notícias.

Apresentaremos de forma simplificada para não maçar:

                             2011         2010 (houve ligeiras correções face 1º relatório e contas de 2010)
Receitas:                275           273   milhões euros
Despesas:              564           474   milhões euros

Prejuízos:             289           201  O prejuízo agravou-se em mais 88 milhões.O aumento das despesas em 90 milhões ditou este agravamento


BALANÇO a 31 Dezembro 2011:
O Balanço representa a situação patrimonial da empresa. É como uma radiografia aos nossos pulmões onde se percebe TUDO o que de BOM e de MAU lhes aconteceu desde que estes começaram a trocar dióxido de carbono por oxigénio.

Ativo 2011:                                             1,1      mil milhões euros
Passivo 2011:                                          3,9      mil milhões euros
Capital Próprio 2011:                              -2,7 (1,1 - 3,9)     mil milhões euros.

Capital Próprio a 31 Dez 2010:                -2,4     mil milhões euros.
Insolvência agravou-se em 300 milhões, o que bate mais ou menos certo com o prejuízo do exercício de 2011: 289 milhões euros.

Capital Próprio a 31 Dez 2003 (há 8 anos):   - 900  milhões de euros
Em 8 anos o capital próprio agravou-se em 1,8 mil milhões de euros: de -900 milhões para -2,7 mil milhões.

Esta é a tal trajetória totalmente insustentável que carateriza as empresas públicas em Portugal. Estão quase todas com cancro nos pulmões em estado terminal.

Podem consultar o Relatório e Contas aqui e retirarem as vossas próprias conclusões.
O Balanço e a Demonstração de Resultados estão logo nas 5ª e 6ª páginas respetivamente.

Só para terminar: sugiro que leiam a notícia do Expresso e desafio-vos a tentarem perceber se só com o que lá está escrito dá para inferir acerca da situação financeira e patrimonial da empresa.

Tiago Mestre

PS: Talvez estas contas me entristeçam mais a mim do que a qualquer outro. Isto porque sou um apaixonado pelos comboios. Percorri até hoje muitos milhares de quilómetros de comboio e continuo a ser aquele puto cheio de ansiedade quando entro na carruagem. Filmei muitos comboios mas deixo-vos este de 10 minutos da Linha do Douro em 2008 que publiquei no Youtube. Para relaxar neste feriado, coloquem full screen e aumentem o volume.. perdoem-me a falta de modéstia:

Deus ex machina - políticos, produtividade, salários e tretas

Temos sido bombardeados na comunicação social por políticos referindo que a redução de salários não é caminho.

Com estas afirmações, até parece que há gente que quer a redução dos salários. Ninguém quer reduzir salários, mas todos sabemos que se os custos laborais forem mais baixos, há maior probabilidade de atrair investimento. E é por aí que alguns, tipo Borges, tentam defender a tal desvalorização salarial. Sofremos um bocadinho agora para recuperar mais tarde.

Mas também isso é irrelevante na nossa perpetiva, porque a pergunta que achamos importante responder é esta:

Será que os salários auferidos em Portugal refletem o nosso grau de produtividade?

1. Sabemos que há muitos empregos que se baseiam no crédito que o exterior nos concede:
 - uma parte dos funcionários públicos que recebe dinheiro diretamente da dívida emitida pelo Estado
 - empresas públicas que estão totalmente levitadas por causa do crédito porque não geram receitas suficientes
 - empresas de grandes obras
 - bancos
 - Promotores e agências imobiliárias, etc, etc
 - Comércio em geral que beneficia do poder de compra dos grupos acima mencionados

Toda esta gente está mais ou menos pressionada para ser despedida ou para ver reduzidos os seus salários.
Facto: A contração do crédito promove esta redução de postos de emprego e de salários.

2. O salário mínimo que é definido politicamente pretende estabelecer um limite que o Estado "acha" que ninguém deve romper. Caso não houvesse ordenado mínimo, certos empregos regressariam e certas pessoas teriam algum poder de compra já que hoje nada conseguem fazer que justifique pagar-lhes o ordenado mínimo. Vivem da caridade do Estado.
Facto: Eliminar ordenado mínimo promoveria mais emprego, mas pressionava os salários a caírem ainda mais.

3. O salário é tão só o preço do trabalho, e sendo um preço, este deve ser definido pelo mercado, ou seja, pela vontade de quem quer comprar e de quem quer vender. Meter o Estado na equação significa vontade em planificar e manipular. Percebemos a boa intenção do Estado em querer manipular para "melhorar", mas dificilmente resulta.

4. Se o salário é o preço do trabalho, então só um trabalho mais produtivo, que produza mais com menos, é que permite obter um melhor preço e melhores salários. Mas isso depende das condições que o país oferece para um clima favorável aos negócios e da cultura intrínseca do seu povo, mais ou menos interessado em trabalhar em equipa. Nesse aspeto estamos longe do Norte da Europa, do Oriente e dos EUA, mas melhores do que muitos outros.


Este gráfico foi publicado num post a 1 de Maio, dia do Trabalhador, aqui no Contas, em que iniciámos esta discussão da produtividade e salários

Percebe-se pelo gráfico que a nossa produtividade por hora trabalhada é metade da verificada na Alemanha.
E será que só auferimos metade também? Segundo vamos ouvindo por aí, parece que sim.

Acreditamos que o mercado está a fazer o seu trabalho, e portanto não podemos afirmar que os salários estejam muito altos ou muito baixos: estão mais ou menos de acordo com o que produzimos.

Mas um fator que continuará a exercer pressão para a redução de salários ou para uma não subida sustentada é a tal contração de crédito que está em marcha. A manipulação (para cima) do preço do trabalho que durou décadas em Portugal está a começar a perder vigor.

Vir a classe política dizer que os salários não podem descer, e só devem subir, é como querer fazer ski sem controlar minimamente a existência de neve. Vale zero e não muda uma vírgula.

O que representa bem a produtividade de um país é a capacidade de organização, criatividade e capacidade de engenho das populações. Isso pouco ou nada se manipula.
Mesmo com muitos mais licenciados no mercado do que antigamente, a produtividade tem-se mantido, ao contrário do que Guterres e Sócrates nos fizeram acreditar e nos fizeram pagar.

Com a redução do Estado e de todos empregos que gravitam à sua volta por falta de crédito, conjugado com a pouca afluência de investimento na formação de novas empresas que produzam alguma coisa e um desemprego estrutural pesado, a pressão para baixar ou não aumentar salários continuará, pelo que, por muito que os políticos "exijam" salários mais elevados, o mercado é que decidirá.
Paciência, é a realidade a impor-se.
Deus ex machina não funciona, por muito que experimentem.

A região de Lisboa, por estar muito dependente deste falso poder de compra, irá sofrer brutalmente...

Tiago Mestre

6 de junho de 2012

Amanhã é feriado, mas hoje foi dia de folga nos mercados.

Parece que hoje os investidores europeus e mundiais ficaram mesmo fartos de perder dinheiro e voltam a ter esperança que melhores dias virão.

As yields de Espanha e Itália caíram, as ações dos bancos europeus subiram (à exceção do BCP) e de forma geral, a perceção de risco dos investidores teve hoje direito a uma folga. E até é merecida, julgamos nós, porque o banho de sangue já decorria há uma semana sem parar, e doses assim tão elevadas são impróprias para cardíacos.
O DAX30 alemão, nossa referência bolsista para a Europa, num mês caiu quase 600 pontos: de 6500 para 5900. É obra, e foi quase tudo na última semana e meia.
Certamente motivado por receios dos investidores que venderam ações com medo e compraram de seguida bunds alemãs. Por aí se explica em boa parte a recente queda nas yields das bunds, que em algumas maturidades roçaram um juro negativo (coisa esquisita), o chamado flight to safety.


Hoje o DAX lá subiu 2%, ou 100 pontos, o que até nem foi mau.

O que questionamos é: o que está por trás desta folga? Já que nada de substancial foi anunciado?

Acreditamos que o banho de sangue terá sido o suficiente nestas últimas semanas para que os investidores acreditem que a classe política não ficará muda e quieta perante tanta destruição de pseudo-riqueza. A experiência colhida no passado bem recente fá-los inferir que desta vez não será diferente.
Acreditam que a única classe de gente no mundo que pode fabricar dinheiro não os dececionará desta vez.

Mais ninguém o pode fazer porque é crime punido em qualquer parte do planeta. Só os políticos o podem.
Poder até podem, mas não deviam... por inúmeras razões que já abordámos aqui no blog.

Mas ainda por outra razão adicional:
Porque agora fica tudo à espera e ninguém arrisca, qual subsídio de desemprego que faz o povo adormecer à espera que o envelope chegue a casa ou aos correios.

Tiago Mestre

BCP desequilibra-se e cai da barreira dos 10 cêntimos (Parte2)

Na visão bélica que demos ontem entre a infantaria que defende as ações do BCP (bulls) e a infantaria que ataca (bears), parece que os bears continuaram hoje com o banho de sangue.

Suspeitamos que a brecha é tão grande que já temos os bears a "malhar" na própria cavalaria dos bulls. 


Daqui a pouco será a artilharia a levar porrada, e para lá da artilharia só há ZERO.

Tiago Mestre

5 de junho de 2012

BCP desequilibra-se e cai da barreira dos 10 cêntimos

aqui escrevemos sobre a performance das ações do BCP. Sempre achámos que a barreira dos 10 cêntimos, apesar de apresentar resistência técnica e psicológica de muitos investidores, presumimos nós, seria quebrada mais cedo ou mais tarde. Desde Novembro até agora foram 7 meses de luta intensa de infantaria, mas parece que os soldados dos 10 cêntimos já foram todos abatidos.

Nós aqui acreditamos que o preço pode chegar a ZERO. É verdade. Tudo o governo fará para evitar tal calamidade, porque provavelmente teria que se declarar algum tipo de insolvência, voltando o fantasma do Risco Sistémico às cabeças dos governantes medricas e cobardes. Eis a nossa análise de leigo aos últimos meses com a ajuda do site do Diário Económico:


ZERO é o limite, não se esqueçam.

Tiago Mestre

PS iguala PSD nas sondagens: andamos tão enganadinhos

Há 2 anos apenas, Sócrates era criticado pela direita por excesso de despesismo e pela extrema esquerda por excesso de austeridade.

Há 1 ano, PS perdeu as eleições e PSD/CDS assumiram o leme, com a promessa de que o défice e o excesso de despesismo seriam controlados. Bastaria cortar nos consumos intermédios e nos desperdícios e tudo se endireitava.

A realidade veio confirmar que estas soluções eram totalmente insuficientes. Ou Passos Coelho estava enganado, o que revela falta de preparação, ou enganou deliberadamente os portugueses, talvez por sede de poder.

Durante a campanha eleitoral o PSD manipulou a formação da opinião pública ao ponto de ter criado espetativas nas populações que vieram a ser goradas. Mas está no poder.

Com o falhanço da gestão das espetativas do PSD, o PS de Seguro entra em força e agarra-se ao argumento de que austeridade mata o país e que o PSD deseja ir além da troika, etc, etc.

Com esta nova manipulação da opinião pública pelo PS; este cola-se nas sondagens ao PSD, e este, em desespero, manipula também a opinião pública realçando apenas as virtudes da austeridade sem informar nem preparar os portugueses para o que ela tem de mau.

Nem uns nem outros têm razão porque é manipulação a mais e verdade a menos.

Enquanto não falarem que a despesa tem que cair 10, 20 30 mil milhões de euros e os impostos 5, 10 15 mil milhões, a economia não voltará a ter fôlego para se erguer e o Estado continuará a ser ator principal.
É só conversa, meus caros! Não percam tempo, pela vossa saúde!

Tiago Mestre

Uma a uma, as manipulações europeias vão sendo desmistificadas!

Houve alguém que descobriu que o dinheiro do LTRO que os bancos italianos obtiveram já foi todo gasto. Notícia zerohedge

E quem foi que descobriu? O maior fundo de investimento do planeta: BRIDGEWATER, ou seja, aqueles que mais investem ou não em obrigações soberanas.

Lamentamos que a descoberta traga dissabores para a Europa, Itália e seu líder não-democrático.

Também descobriram que o ESM e EFSF juntos não chegam para metade das necessidades de Itália e Espanha em conjunto. Aauucchh. Mais uma descoberta desagradável.

Coitados dos líderes políticos europeus, que no frenezim da planificação centralizada julgavam que os problemas se resolviam nuns gabinetes em Bruxelas.
A manipulação descobre-se sempre, sobretudo aquela que é mal engendrada.


E já sabemos o que acontece aos juros das obrigações soberanas quando os bancos domésticos deixam de ter "carcanhol" para as comprar.

Nota de rodapé:
Ainda há 3 semanas ouvíamos no programa Olhos nos Olhos o economista Vitor Bento, conselheiro de Estado, referir que os efeitos do LTRO ainda se estavam a evidenciar e que era preciso dar tempo para ver os resultados.
O LTRO já foi há muito, get it!

Tiago Mestre

4 de junho de 2012

Obrigações CoCo (conversão contingente), cuidado com o cão !

Obrigações CoCo, mais uma aldrabice financeira, julgamos nós.

São títulos de dívida que o Estado comprará aos bancos emissores para estes reforçarem o rácio TIER1.
O BPI irá emitir 1,3 mil milhões. O BCP 3,5 mil milhões de euros.

O Estado, ao garantir que compra estes títulos híbridos, garante ao banco que este se recapitalizará por considerar estes títulos elegíveis para entrar nas contas dos bancos como sendo capital, quando deveriam era entrar no passivo do banco. Eis o passo de magia.
Desta forma os bancos "recapitalizam-se", correspondendo às exigências do Banco de Portugal (BP) e da Autoridade Bancária Europeia (ABE) em atingirem os míticos 10% no rácio TIER1.

Nós compreendemos a necessidade do BP e da ABE em exigir aos bancos que se recapitalizem o mais depressa possível, porque mal a recapitalização esteja feita, irão exigir logo de seguida que abram os balanços e valorizem os seus ativos em modo "mark to market" para desmistificarem os seus balanços à comunidade internacional.
Mark to market significa que se um banco comprou uma casa ou uma obrigação por 5 há 3 anos, mas agora só vale 3, este tem que desvalorizar o ativo de 5 para 3 no seu balanço, declarando um prejuízo de 2.
Podem não acreditar, mas até aqui os bancos tinham a "suprema lata", patrocinados pelas autoridades, em manter o valor 5 nos seus balanços, quando o mercado há muito que dizia que só valia 3. Na gíria apelida-se de mark to fantasy. Faz lembrar aqueles proprietários que acham que o seu imóvel vale muito mais do que o mercado diz que vale, e assim nunca o conseguem vender, até que um dia um qualquer herdeiro diz basta e tenta vender pelo valor de mercado.

Com este expediente os bancos evitaram reportar prejuízos gigantescos nestes últimos anos, o que resultaria em falências massivas já que ninguém acumulou reservas para fazer face a estes potenciais prejuízos. Só que  os investidores mais atentos aperceberam-se desta mega-aldrabice mundial e há muito que se protegeram destas falsidades. Toda a desconfiança que há para com os bancos reside nestas apostas loucas que foram feitas no imobiliário e que quando se percebeu que iriam todas dar prejuízo esconderam-nas na esperança que não fossem descobertas.

Os líderes políticos sempre souberam desta fragilidade dos bancos, mas no tempo das vacas gordas ninguém se preocupava em haver bancos com capitais próprios que cobrissem os ativos mais arriscados. Como dava tudo lucro, não era preciso reservas para nada. ERRADO!

Mas a aldrabice não deu para aguentar mais, e agora, um a um, os bancos vão rebentando cá para fora as suas necessidades de financiamento. O Bankia na semana passada pediu 19 mil milhões de euros. hoje é Portugal a resgatar 3 bancos num valor superior a 5 mil milhões de euros.

Esta recapitalização é um expediente para que os bancos joguem limpo e não caiam todos na falência quando aplicarem o mark to market aos seus balanços.

A hipocrisia no meio disto tudo é que as más decisões dos banqueiros em concederem empréstimos à bolha imobiliária serão agora financiados através destas obrigações CoCo que o Estado português já assumiu que as irá comprar.

Estas obrigações são de facto títulos de dívida, mas podem transformar-se em ações caso o banco não cumpra as metas definidas pelo Estado, e nesse caso o Estado passa a ser um real acionista do banco.

Isto cheira a mau negócio para o estado, porque a julgar pela queda das ações dos bancos nas bolsas de valores, no dia em que o Estado converter as CoCo em ações, os investidores agitar-se-ão porque saberão que o Estado está a agir porque o banco não cumpriu as metas.
Estes quererão vender as suas ações e o preço destas cairá, tornando o Estado num péssimo acionista já que terá que registar perdas nesta sua "nova" empresa.

O Estado irá prever esta reação em cascata e certamente que não quererá efetuar essa conversão, mantendo os títulos de dívida CoCo em sua posse mesmo com o banco a prevaricar, que é o costume: O risco sistémico estará sempre a pesar na cabeça dos governantes e estes nunca terão a coragem de assumir as decisões difíceis. O timing não era o certo, dirão eles um dia mais à frente numa qualquer comissão parlamentar.

E para que não restem dúvidas a quem será apresentada a fatura:

Todos sabemos que o Estado irá usar o dinheiro da troika para "comprar" estas obrigações CoCo, e também sabemos que esse dinheiro fará parte da dívida pública portuguesa, ou seja, A RECAPITALIZAÇÃO DOS BANCOS SERÁ FEITA POR TI E POR MIM, CONTRIBUINTES PORTUGUESES.

Cuidado com as obrigações CóCó.

Para alguns de vós pode ser desagradável tomar conhecimento destas aldrabices, mas uma consciência lúcida e uma opinião pública fortes fazem-se desta forma, percebendo os meandros e as potenciais consequências deste tipo de atuações políticas.
Ficarmos pela rama e mandarmos umas bocas de que aquele é um ladrão, o outro é um vigarista e aqueloutro não presta não é opinião pública, é maledicência pública, e só nos leva de engano em engano.
Custa, mas tem mesmo que ser...

Tiago Mestre

Cuidado com as empresas públicas (Parte 2)

Referente ao comentário do Filipe Silva no post anterior, também gostaríamos de dizer algumas coisas:

Concordamos em pleno que a crise só chegou a Lisboa já depois de ter chegado a todo o lado, excepto talvez ao Arquipélago da Madeira!
Lisboa e os seus residentes viveram de dinheiro emprestado e mantiveram o seu nível de vida durante décadas dessa forma. Inclusivamente criou-se um certo desdém dos lisboetas para com o resto do país, consubstanciando aquela célebre frase das invasões francesas de que "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem".

Os lisboetas não se aperceberam que afinal era Portugal que produzia para manter o centro do poder (Lisboa) de barriga bem cheia e sempre pronta a embarcar em golpes, revoluções, contra-golpes, e já mais tarde em democracia, nesta atitude meio ignorante, meio soberba de que Lisboa é que manda e onde tudo acontece.

Mas só conhecendo o país, sobretudo o Norte, e um pouco de economia, é que se percebe de onde é que a riqueza produtiva vem.

No que toca a gastos públicos, infelizmente já não concordamos com o Filipe. Os políticos das autarquias e das regiões foram infetados com o mesmo vírus do despesismo público centralizado lisboeta de forma mais ou menos generalizada, independentemente da zona do país. Há autarquias e empresas públicas boas e más espalhadas um pouco por todo o país sem haver um padrão definido de que ali são mais disciplinados e acolá menos. Mas concordamos que há um maior ímpeto para gastar das autarquias e das empresas públicas que rondam a cidade de Lisboa face ao resto do país, talvez pela proximidade com o Terreiro do Paço!

Sobre a STCP, empresa equivalente à Carris e que opera na zona do Porto, as contas também não são famosas:

Receita 2011:       69 milhões euros
Despesa 2011:     122 milhões
Resultado 2011:    - 54 milhões
Em comparação: Resultado 2010:  - 37 milhões

Resultado operacional 2011: -6,3 milhões
Resultado operacional 2010: -9,2 milhões

O resultado operacional em 2011 até foi menos mau do que em 2010, mas certamente que os encargos da dívida aniquilaram essa melhoria operacional, já que os prejuízos totais "saltaram" de 37 para 54 milhões.

Balanço 2011:
Ativo:                  109 milhões
Passivo:               440 milhões
Capital Próprio:   - 330 milhões de euros. Mais uma empresa totalmente insolvente
Em 2010 o capital próprio era de -275 milhões, ou seja, de 2010 para 2011 a STCP agravou ainda mais a sua condição económica

Mesmo que estas empresas comecem a apresentar resultados operacionais positivos, estes não são suficientes para compensar os custos da dívida que foi herdada no passado e que todos os anos se agrava.
A STCP obteve 110 milhões de novos financiamentos em 2011 e 94 milhões em 2010. É quase o dobro dos seus resultados. Totalmente insustentável.

A Carris também apresentou em 2010 resultados bastante negativos e o seu balanço é uma autêntica vergonha à semelhança das suas empresas "primas".

Metro do Porto -
Deixámos de fora a receita e a despesa por não estar totalizada no relatório e contas, obrigando a umas contas..
Resultado 2011:     -397 milhões de euros
Resultado 2010:     -352 milhões

Resultado operacional 2011: -233 milhões
Resultado operacional 2010: -244 milhões
Prejuízos operacionais muito pesados, bastante piores do que a CP ou a Metro de Lisboa

Balanço 2011:
Ativo:  2,39 mil milhões
Passivo: 3,66 mil milhões
Capital Próprio em 2011:   - 1,269 mil milhões. Totalmente insolvente
Capital próprio em 2010:    -924 milhões. O capital próprio agravou-se em 37% de um ano para o outro. É muito grave.

Os financiamentos são gigantescos, certamente devido à política expansionista em abrir linhas novas e finalizar outras quase concluídas:
2,4 mil milhões em 2011
2,1 mil milhões em 2010

Em condições normais, ou seja, num cenário em que o Estado não daria aval aos empréstimos que a Metro do Porto pede aos bancos, esta empresa veria-os negados ou com juros proibitivos, e por explosão de tesouraria teria já fechado as portas.
Estes são investimentos de uma grandiosidade totalmente incompatível com a riqueza produzida na região, ou seja, pela receita total de bilheteira.

Porto, Gaia, Vila do Conde, Matosinhos, Maia e Póvoa do Varzim precisariam de poupar durante décadas para se poderem dar ao luxo de "oferecer" este serviço às populações. Não o fizeram e preferiram atalhar caminho.
Dinheiro? Isso arranja-se, é preciso é fazer obra. Pois, mas depois dá nisto

Estudei no Porto antes de haver Metro do Porto e não posso dizer que fizesse uma falta terrível... As pessoas adaptavam-se ao que havia, e posso dizer com propriedade que as gentes do Norte, se há coisa que sabem é adaptar-se às circunstâncias e sobreviver às contrariedades, saindo sempre mais fortes. Mas com políticos e gestores assim a enterrá-las, confesso que não é fácil.

Tiago Mestre

3 de junho de 2012

Cuidado com as empresas públicas do Estado. Análise às contas e conclusões de um cidadão anónimo

Sugerimos a Vitor Gaspar que comece já à procura de 1,3 mil milhões de euros para manter as empresas de transporte e outras do setor Estado à tona de água para 2013. Só no primeiro trimestre foram 316 milhões de euros de prejuízo. Ainda faltam os outros 3 trimestres e com os custos de financiamento a subir, talvez 1,3 mil milhões já não cheguem.

Eis as empresas públicas com aparência de privadas:
CP
CP Carga
Metro Lisboa
Metro Porto
Carris
STCP
SOFLUSA
REFER
EP
TAP
NAV
ANA
Arsenal Alfeite
Estaleiros Viana
CTT
e outras que agora nos escapam.
São, na sua esmagadora maioria, empresas deficitárias há décadas, salvo honrosas exceções como os CTT e a ANA.
No tempo do Estado Novo, a CP, por exemplo, já dava prejuízo, 1 milhão de contos em 1973, mas como o Estado tinha superavits orçamentais, todos os anos este passava um cheque para liquidar as contas da CP, mantendo-a como uma empresa de serviço público (tarifas baixas) mas sem estar falida. Não era preciso recorrer a endividamento nenhum. Marcello Caetano explicou muito bem este assunto no seu livro Depoimento.

E eis a CP de hoje, esse lindo exemplo da nossa democracia:
Receitas 2010:     272 milhões euros
Despesas 2010:   467 milhões. É quase o dobro das receitas
Prejuízo 2010:     195 milhões
Ou seja, teve que se endividar pelo menos em 195 milhões de euros só para compensar a diferença e a tesouraria não rebentar.
É assim desde 1975, e o resultado de anos e anos de gestão "pública" perdulária é um Balanço verdadeiramente miserável que deveria envergonhar qualquer gestor digno desse nome:
Passivo de 3,6 mil milhões de euros
Ativo de apenas 1,2 mil milhões.
Ou seja, possui um capital próprio negativo de 2,4 mil milhões de euros. (1,2- 3,6).
A receita anual de 272 milhões de euros é quase dez vezes inferior ao capital próprio. Nem há adjetivo para caraterizar este rácio!

Como é que esta empresa tem condições para se erguer? Não tem.
E já todos sabemos o que deve acontecer às empresas que não repõem os capitais próprios acima de zero após 2 anos consecutivos de capitais próprios negativos. São declaradas INSOLVENTES e deves-lhe ser nomeado um administrador judicial pelo Tribunal para despachar o assunto o quanto antes.

E o Metro de Lisboa?

Receitas 2010:            93 milhões
Despesas 2010:          241 milhões!! As despesas são quase o triplo das receitas.
É caso único, e portanto, um caso de estudo sobre o que NÃO deve ser uma empresa

Prejuízo 2010:            93-241 = -148 milhões de euros. O prejuízo é quase o dobro das receitas.

É mais ou menos assim há décadas! O governo é que dita o preço das tarifas (demasiado baixas) e os gestores que se amanhem em arranjar o dinheiro para cobrir os prejuízos. Toca de se endividarem até à ponta dos cabelos.

E um pormenor muiiiito interessante:
Gastos com pessoal 2010:     87 milhões de euros.
Só em pessoal gasta-se quase a totalidade das receitas, sobram 6 milhões (93-87) para financiar tudo o resto... É assim a gestão da coisa pública em Portugal.

A empresa teve que se endividar em 2010 em pelo menos 148 milhões de euros para se manter à tona de água. Mas como tem que amortizar créditos e juros contraídos em anos anteriores, o endividamento real em 2010 foi de, pasme-se: 433 milhões de euros. Ui!

Balanço:
Ativo: 520 milhões
Passivo: 1178 milhões
Capital Próprio: 658 milhões negativos.
Mais uma empresa do Estado totalmente INSOLVENTE.

2011 não terá sido muito diferente, para não dizer pior, já que os custos de financiamento devem ter aumentado, mas as contas ainda não estão disponíveis na net.

Podíamos continuar com o Metro do Porto, a REFER e a EP, etc, etc, mas os leitores e as leitoras já perceberam certamente a mensagem.

Tiago Mestre

A 9 de Julho adiaremos novamente o encontro com a nossa verdade

Caros leitores e leitoras, é sabido que a UE está a acelerar o processo de formalização do ESM, o Mecanismo de Apoio Permanente da UE.

O seu valor será superior a 500 mil milhões de euros e servirá sobretudo para financiar países com problemas de juros elevados.
Há quem peça agora que sirva também para recapitalizar bancos, sobretudo pelo falhanço do Bankia em Espanha e pela incapacidade do governo espanhol em financiá-lo através dos mercados da dívida.

A 9 de Julho o ESM estará operacional.
Os 500 mil milhões é dinheiro que não existe em concreto. O fundo terá que pedir emprestado ao planeta, tal como se fez com o EFSF, e a taxa de juro será aquela que os credores quiserem em função da sua perceção de risco. A garantia será dada pela Alemanha, país que no fundo assegura este acumular de dívida da UE.

Suspeitamos que em Setembro ou Outubro Portugal pedirá novamente ajuda para garantir mais um empréstimo, agarrando assim uma fatia dos 500 mil milhões. Desta forma mantêm-se protegido e adia o encontro com a sua verdade, protelando as reformas difíceis e a redução da dívida, que continuará a aumentar.
Com um segundo resgate Portugal verá a sua dívida pública subir para 230 - 250 mil milhões de euros, representando 150% do PIB aproximadamente. Os juros passarão os 12 mil milhões euros/ ano, o que num universo de 60 mil milhões de euros de receita /ano significará que os juros comerão 20% de toda a receita.
Quando um Estado gasta mais de 10% das suas receitas em juros de dívida, as agências de rating assumem esta percentagem como estando para lá do sustentável, reiterando a necessidade de conservar a dívida portuguesa como "lixo". Escrevemos sobre esta assunto aqui.

Com este 2º resgate Portugal assegura definitivamente o seu passaporte para abandonar a austeridade e as reformas difíceis, regressando ao "crescimento" milagroso que tantos apregoam. Já estamos a ver o TGV e o novo Aeroporto a serem construídos como instrumentos de "saída" da crise e retoma do crescimento e do emprego. Nessa altura, em 2014, já toda a gente terá esquecido Sócrates e as suas políticas milagrosas de crescimento. Seguro estará em 1º lugar nas sondagens e o processo repetir-se-á novamente.

Não acreditamos que a Europa "rebente" antes de se esgotar o dinheiro do ESM. O BCE pode ir sempre imprimindo e emprestando de borla. Como a inflação continua baixa, imprimir ou não imprimir torna-se um assunto meramente de princípio ético e económico, estando a Alemanha cada vez mais isolada nesta questão. E caso a coisa se complique ainda temos a Reserva Federal, que pode sempre emprestar em dólares aquilo que os bancos europeus quiserem e o FMI, que também ele pode criar fundos tipo ESM e pedir dinheiro emprestado ao planeta com a garantia dos países participantes. Enfim, há ainda muito tiros que podem ser dados, e que serão dados porque os políticos perante a vertigem da decisão difícil recuam e preservam o status quo até ao último segundo.

A paz podre está para durar ainda uns anos. No entretanto não se espantem se o desemprego chegar aos 20%. e tudo continuar por resolver. Já o é na Espanha. Porque razão é que não pode ser aqui também?
E no dia em que tivermos mesmo de resolver os nossos problemas porque já não dá mais para adiar, então, aí chegará aos 30 ou aos 40% e os juros da dívida serão 40% ou 50% das nossas receitas. Serão lindas percentagens para se trabalhar.

Tiago Mestre

2 de junho de 2012

No campo das ideologias, nada melhor do que testá-las no terreno e interpretar os resultados.

Não temos nada, mas mesmo nada contra o socialismo. Nós mesmos defendemos um socialismo, mas de responsabilidade, ou seja, que apenas ajude quem não consegue ajudar-se a si próprio. Foi sempre assim nas comunidades, nas aldeias e nas vilas, em que a família é o cerne de toda esta solidariedade inter-geracional.

Mas nas cidades a coisa complica-se. Se o Estado poder ajudar, desde que não atrapalhe as contas públicas, que não promova comportamentos abusivos e que não avilte os contribuintes que se esforçam diariamente, então ajudar aqueles que não conseguem ajudar-se a si próprios não é disparate nenhum.

Mas quando ajudar significa comprar votos, prometer dinheiro a troco de nada, desenvolver comportamentos abusivos, usurpar aqueles que se esforçam, e ao longo dos anos engrossar os que beneficiam e reduzir os que contribuem ao ponto do sistema ficar 50-50, então caros amigos e amigas, é preciso dizer basta!

Antes de se apoiar o socialismo ou qualquer variante, é preciso compreender a natureza humana e como ela reage em função dos estímulos.
Ninguém tem prazer a trabalhar por trabalhar. Todos queremos uma recompensa pelo trabalho, sob a forma de dinheiro ou outra para podermos tocar pelos bens e serviços que achamos importantes para nós.

Mas se for possível obter dinheiro e viver bem retirando o trabalho da equação, então muito poucos resistirão. A socialização da sociedade ao longo da 2ª metade do último século promoveu a pouco e pouco esta viragem civilizacional.

Tempos houve em que havia gente que trabalhava mas não recebia nem dinheiro nem liberdade para os trocar com o que quer que fosse. Tal sistema tinha um nome: escravidão. Foi abandonado e não foi por acaso. Travaram-se guerras por causa da escravatura, pelo que não foi assunto de menor importância.

Mas no campo das ideologias, se formos sensatos e apelarmos à lógica o melhor mesmo é testá-las no terreno, ver os resultados e tirar conclusões.
Foi isso que o Vivendi postou no seu blog acerca de uma experiência que um professor realizou na Universidade do Texas com uma turma inteira. Leia aqui e tire as suas próprias conclusões.

Tiago Mestre

Força Peter Schiff

Peter Schiff é de longe o melhor opinion maker que temos no mundo ocidental nos dias que correm.

Para quem ainda tem dúvidas porque é que o atual sistema capitalista está totalmente poluído por governos e políticos intelectualóides:
. pseudo-esquerdistas;
. intervencionistas;
. de planificação central;
. manipuladores e castradores das liberdades individuais;
. com estímulos de taxas de 0% para os banqueiros, subsídios para quem não quer trabalhar e pensões acima do possível;
. que não se culpabilizam por imprimir e pedir emprestado sem regra;
. E que ocupam quase 50% da economia.

É JÁ HOJE UM TOTAL FALHANÇO?
NÃO PERCAM ESTES 19 MINUTOS, em especial a partir do minuto 15:


Tiago Mestre

1 de junho de 2012

Porque é que defendemos a austeridade aqui no Contas quando já poucos acreditam?

Por sugestão do nosso mui estimado e amigo Vivendi, respondemos com um novo post ao comentário publicado pelo Anonimo aqui, que questionava as nossas motivações pela austeridade, quando está comprovado que esta nos está a "enterrar" cada vez mais:


O que defendemos aqui no Contas é austeridade a sério, ou seja, muito mais forte do que aquela que o governo tenta implementar.
Na nossa opinião, o Estado terá que cortar inevitavelmente 30 mil milhões de euros na despesa pública, ou seja, descer de 80 para 50 mil milhões de euros. Em 2012 ainda não conseguiram reduzir nada face a 2011, até aumentou. E isto terá que ser feito porque a receita pública é hoje 65 mil milhões, mas amanhã será 60, 58, 55 até chegar aos 50. Este fenómeno ocorrerá por contração económica, fadiga fiscal e por redução da despesa pública por ausência de crédito, que influencia negativamente a receita pública.

Esta redução de receita e de despesa acontecerá sempre, quer queiramos, quer não. A única diferença é: 
ou seremos nós senhores do processo ou não.

Se não formos, adiar-se-á tudo até à última e caminhamos para o abismo assobiando para o lado, que é a apologia do "crescimento" que agora tanto se defende
Se formos nós os senhores, será muito doloroso mas temos que começar JÁ, com pena minha que não tivesse sido há 10 anos, porque seria infinitamente mais fácil:
. O desemprego irá bem para lá dos 20%;
. A dívida de 195 mil milhões e os 9 mil milhões de juros é TUDO para renegociar;
. Despedimentos e extinções de serviços públicos considerados hoje essenciais, como universidades, politécnicos, hospitais e muitos outros que só de ler até dói;
. Haverá insolvências de grandes empresas que operam em áreas como a grande logística, transportes e retalho.
. Haverá falhas no abastecimento de superfícies comerciais nas grandes cidades e às respetivas populações;
. A moeda, quer seja o euro ou o escudo, sofrerá desvalorizações,já que em caso de escassez de bens e produtos, os preços dos existentes tenderão a aumentar.
. Aumento generalizado da violência nas periferias urbanas
. Transferência de atividade e de pessoas do setor terciário para o setor primário, ou seja, regresso à agricultura, porque o dinheiro emprestado acabou-se e só podemos consumir aquilo que produzimos.
. Empobrecimento generalizado e massivo, igualando o poder REAL de compra dos portugueses ao seu poder de produção.

E por cada dia que passa em que adiamos a austeridade, ou seja, a transição de menos consumidores para mais produtores, pior será lá mais à frente.

Em 2000 tínhamos 4,4% de desemprego e 60 ou 70 mil milhões de dívida pública. Em 12 anos, triplicámos estes 2 índices. Quanto mais esperamos, mais nos enterramos.

E mesmo esta espera só é consentida devido à decisão de terceiros, ou seja, só adiámos a verdadeira austeridade porque alguém nos emprestou 78 mil milhões em 3 anos. NUNCA nos deveriam ter emprestado esse dinheiro, NUNCA. É infame e adia, mais uma vez, o encontro com a nossa verdade. Há 1 ano devíamos aos credores 160 mil milhões, hoje devemos 195 mil milhões. O PIB português são 170 mil milhões.

Custa-nos ter consciência destas coisas desagradáveis e transmiti-las a quem quer ouvir, mas por dever de verdade e de rigor técnico e histórico é nossa obrigação partilhá-las.



Tomámos consciência desta inevitabilidade em Novembro de 2010, depois de muitos, muitos meses de estudo. Em Dezembro surgia o Contas, e desde aí que as coisas têm vindo sistematicamente a piorar, independentemente do que os políticos digam ou façam. Eles apenas tentam adiar o inevitável agravando a nossa condição, e com isso nós não pactuamos:
Fomos resgatados em 2011, a Grécia recebe 2º resgate, Itália e Espanha são devoradas, EUA agravam condição fiscal, bancos TOTALMENTE falidos com aparência de solventes, impressão de dinheiro planetária, LTRO, QE, TWIST, TARGET2, estímulos e mais estímulos. Para quê? Para comprar mais uns meses, só!

Não recomendamos a ninguém com problemas cardíacos o futuro que se desenrolará à nossa frente nos próximos anos.


Tiago Mestre

Cuidado com o próximo futuro

Sugerimos aos leitores e às leitoras que apertem o cinto, coloquem os capacetes e vistam os coletes de segurança. A velocidade dos acontecimentos tomou um novo impulso e o otimismo irrealista de líderes europeus ainda em Abril e dos americanos em Maio deu lugar ao pessimismo desenfreado por quase toda a gente. Normalmente é assim com os ignorantes.
E para aqueles que sofrem de problemas cardíacos ou outros, como a ansiedade, não recomendamos o futuro que está por vir.

Então hoje tivemos:

- Bolsa Alemã DAX30 a cair uns expressivos 3,5%
- Dow Jones caía há pouco 2,26%, retornando a valores de 1 de Janeiro de 2012, neutralizando toda a injeção massiva de capitais que a FED tem promovido nos mercados de capitais. Imaginem se a FED não estivesse lá.
- Bolsas europeias da periferia a tocar em mínimos de 10 e 15 anos !!!, quase pré Euro
- O desemprego em Portugal instalou-se bem nos 15%
- Os novos empregados nos EUA foram de apenas 69 mil, quando se projetavam 150 mil. Tal não compensou os novos desempregados e assim a taxa subiu de 8,1 para 8,2%
- A empresa grega que fornece gás às centrais termo-elétricas gregas ameaça cortar o fornecimento
- Ainda ninguém sabe como é que Espanha irá arranjar 19 mil milhões para financiar o Bankia. Segundo o JP Morgan, a recapitalização dos bancos espanhóis ascende a 350 mil milhões, 1/3 do PIB aproximadamente.
- Juros da dívida soberana na periferia bem acima do suportável pelos próprios países;
- Na Grécia, ainda faltam duas semanas. Uma eternidade na vertigem temporal dos dias que correm.

Bem nos pareceu no Domingo passado que esta semana prometia.

Talvez na próxima semana apareça Draghi de mãos dadas com Bernanke anunciando em conjunto o maior pacote de estímulo da história do capitalismo ocidental, sendo que o último grande pacote europeu foi há... 3 meses (LTRO) e o americano ainda vigora, só terminando em Junho (Twist).
Também estes dois conjugados eram os maiores da história... até deixarem de o ser.

Tiago Mestre

Frau Angela, ne me quitte pas (Parte 2)

Cara Frau Angela Merkel, escrevemos-lhe diretamente a partir deste blog para que sinta que ainda há alguém na periferia que concorda com austeridade e equilíbrio das contas públicas em detrimento do suposto "crescimento" milagroso que se anda agora a pregar na Europa.

Podemos-lhe dizer que até há ano e meio, muitos economistas da praça exigiam a José Sócrates o equilíbrio das contas públicas, mas como receita apenas sugeriam a redução de umas gordurinhas aqui e acolá. A economia pouco se ressentiria e tudo continuaria sobre rodas. Sócrates não fez caso, ou porque é teimoso, ou porque já sabia na altura as reais consequências dessa receita.

Passos Coelho, ingénuo e crente nas gordurinhas, achou que o caminho para o equilíbrio era apenas esse e, sem se dar conta, colocou Portugal em queda livre na procura interna do PIB. Para tal, bastou reduzir o défice em mil milhões de euros em 2011 (não estamos a contar com a integração dos fundos de pensões, obviamente). Nem ele nem 99% dos portugueses percebeu o que se estava a passar. Todos se sentiram enganados com a campanha eleitoral e as críticas começaram a chover; vai daí novas (velhas) ideias voltam a emergir na Europa: é preciso o crescimento e acabar com a austeridade, que nos está a matar.
Grécia, Hollande e agora Seguro alinham nesta frequência dia sim dia também.

V. Exa, pelas pressões a que deve ser submetida, presumimos que comece mais cedo ou mais tarde a tergiversar sobre esta matéria, o que é natural, já que as consequências da austeridade serão um retrocesso de várias gerações na civilização que todos conhecemos e de que todos gostamos. Apenas lhe recomendamos que medite, e medite muito, sem se deixar influenciar pela verborreia pseudo intelectual desta esquerda que só sabe dizer mal do que existe sem se atravessarem com nenhuma ideologia realista.
Imprimir dinheiro é cometer fraude: salva o dia de amanhã mas compromete cada vez mais o futuro.
BCE emprestar sem colateral é colocar mais contribuintes na fila de espera para pagar a conta, o que também é fraude.

V. Exa terá pela frente muitas mais pressões. Mario Draghi não a irá largar e Mr. Barack Obama começa a ficar impaciente com a sua teimosia em não querer imprimir. Temos aí muitas eleições importantes e ninguém as quer perder.
Prepare-se para a cimeira do G20 que ocorrerá dentro de semanas porque V. Exa. será o prato principal, não se engane!

Às suas justificações em defesa da austeridade eles responderão: "Pois mas se formos por aí, todo o sistema implode e a Alemanha também sofrerá com isso."

Perante este tipo de argumentações, não vacile, porque eles são muito melhores manipuladores do que V. Exa.
Eles sabem jogar poker mas desconhecem a poder da lógica, já V. Exa. é precisamente o contrário!

Um conselho nosso:
Se V.Exa. se sentir muito pressionada e bastante nervosa, ameace sair do euro e deixe essa moeda à sorte dela, que era o que já devia ter feito há muito, muito tempo!

Tiago Mestre