8 de maio de 2012

Democracia grega extingue-se pelos corredores de Bruxelas (Parte 2)

Caros leitores e leitoras, bastaram menos de 24 horas para que o líder do partido mais votado na Grécia, Nova Democracia, informasse o planeta que é impossível formar governo com maioria parlamentar na Grécia. Cheira a esturro!

A palavra é agora dada ao segundo partido mais votado, o Syriza de esquerda moderada, que em 3 dias deve "tentar" formar governo. Também este rejeitou formar governo com o partido mais votado, e a esquerda radical, potencial aliado deste Siryza, já recusou participar na formação do governo. Syriza e PASOK, do já conhecido político Venizelos, não atingem maioria juntos, ou seja, outro fracasso se anuncia.

Este Syriza está contra o pacote de austeridade imposto pela Europa, mas já é a favor de receber o dinheirinho que tanto precisam, ou seja, é a favor do Euro e da UE.

O maior BLUFF político da história política contemporânea europeia continua "prego na lata".

Aguardamos novas eleições para se decidir não sabemos bem o quê... ou então que formem governo com minoria parlamentar, a la Sócrates 2009. Boa sorte!

Tiago Mestre

Podemos aprender com o Estado Novo? Ou ainda é tabu? (Parte 4)

Caros leitores e leitoras, dando continuidade à série de 3 posts já publicados sobre as políticas do Estado Novo na década de 30, publicamos hoje mais um post sobre outro assunto que ainda hoje é objeto de discussão:

A falta de instrução do povo no período do Estado Novo


Deixámos de fora as considerações adicionais de António Ferro, por serem excessivamente bajuladoras!


" Esgotado o assunto, consultada a carta mental dos problemas ainda não tratados, hesito alguns segundos entre vários que igualmente me interessam e escolho, por fim, o problema da Instrução:

- Uma das grandes acusações que se fazem à Ditadura é a do seu hipotético desinteresse pelo grave problema do analfabetismo. Diz-se, por exemplo, que o Governo não gastou com a instrução o que tem gasto com outros problemas talvez menos graves e menos urgentes: portos, navios, etc, etc... Terá razão essa acusação?

- Devo dizer-lhe, antes de mais nada, que a Ditadura tem feito mais pelo problema da instrução em seis anos do que os governos partidários em vinte. Bastou uma boa arrumação dos serviços de ensino para chegar a resultados que as situações anteriores não tinham obtido. Queixamo-nos todos de falta de escolas, não é verdade? Pois parece que as existentes eram ainda demais, visto uma grande parte delas estar há longo tempo sem professores quando a Ditadura começou a sua obra. Agora, pelo menos, não há escolas fechadas e muitas mais têm sido construídas nos últimos anos. Para lhe demonstrar o interesse constante que nos merece o problema, bastará dizer-lhe que o orçamento da Instrução Primária foi aumentado, este ano, em cerca de cinco mil contos, aumento considerável se atendermos às restrições feitas em outros ministérios. Onde está, portanto, o desinteresse, o abandono? Palavras, sempre palavras... Falta de propaganda, a falta habitual de informações exactas...

Atrevo-me a insistir:

- Mas parecem-lhe suficientes esses paliativos? Se os governos anteriores se limitaram a marcar passo, porque não correr agora, em vez de simplesmente andar? Não achou interessante a campanha do Diário de Notícias contra o analfabetismo? Não lhe parece que se deveria estudar um plano quinquenal para liquidar o analfabetismo?

- É certo que não podemos cruzar os braços diante desse grave problema, que se prende intimamente com a obra da renovação que estamos empreendendo. Mas temos de mudar de processos se queremos chegar a um resultado positivo, se desejamos combater o analfabetismo para português ler e não para inglês ver... Se não formos práticos e razoáveis, se continuarmos com a mania das grandezas, não será com golpes orçamentais que o problema se há-de resolver...

- Mas que fazer, nesse caso?

- O senhor sabe quanto se gasta, actualmente, com o quadro de professores de instrução primária?

- Confesso que ignoro...

- À roda de 90 mil contos... Ora, se houvesse um professor primário em cada freguesia ou lugar que o não tem, essa verba subiria imediatamente para trezentos ou quatrocentos mil contos, cifra incomportável no actual orçamento deste pequeno País. Acrescente ainda, agravando a cifra, a construção das escolas necessárias para esse programa de ensino, e cujas despesas não iriam a menos de quinhentos ou seiscentos mil contos! Lembro-lhe ainda que as verbas existentes e as hipotéticas têm como base os vencimentos actuais que os professores primários gostariam de ver aumentados... Se satisfizéssemos, portanto, as suas aspirações e se aumentássemos os quadros até extinguirmos o analfabetismo, está a calcular onde iríamos todos parar... Deixemo-nos, portanto, de fantasias. Desafio, seja quem for, a resolver o problema por esse processo!...

- Como resolvê-lo, então?

- Examinando o problema com simplicidade, sem a mania das grandezas que prejudica todas as nossas iniciativas, que as deixa ficar em meio. É impossível, evidentemente, fazer as escolas que nos faltam, pelo modelo por que temos feito algumas, gastando cinquenta ou oitenta contos em cada uma delas. Mas se em vez de cinquenta ou oitenta gastarmos quinze ou vinte, já o problema fica reduzido a problemas abordáveis. É quimérico, sem dúvida, prover todas as freguesias com professores diplomados. Mas por que não deixar esses nos grandes centros, nas cidades, nas vilas e lugares de certa importância, e criar em todas as aldeias, nas povoações escondidas e inacessíveis, postos de ensino, que seriam mantidos à custa duma pequena gratificação? Seria esta - julgo eu - a única forma prática de resolver o problema, de ensinar toda a gente a ler, escrever e contar, degrau essencial para a educação cívica dum povo...

Não haveria, igualmente, um excesso de optimismo nesse plano admirável nas suas linha sgerais?

- Não... não há optimismo! - replica Salazar com segurança - Não se trata de uma experiência ou duma ideia original. É o método dos países pobres. Foi assim que a Noruega aprendeu a ler. Quando cheguei à idade de aprender a ler, comecei logo a frequentar a escola primária de Santa Comba. Mas éramos muitos e o professor poucas vezes me dava lição. O meu pai, aborrecido porque eu não fazia grandes progressos, tirou-me da escola e mandou-me ensinar por um homenzinho que dava lições particulares num compartimento da sua casa térrea. Éramos talvez trinta, e cada mensalidade não ia além de três tostões. O homem, recebia, desta forma, nove mil reis por mês, pouco menos, afinal, do que recebia um professor primário naquela época. E aqui tem como eu aprendi a ler com um precursor rural dos tais postos de ensino, que conseguiam manter-se sem os subsídios do Estado, que seria mais fácil dar agora."

6 de maio de 2012

COM ESTA EUROPA, EIS UMA SUGESTÃO PARA A ALEMANHA

Caros leitores e leitoras, em menos de 1 ano passámos da política alemã de imposição de austeridade ao continente europeu para a necessidade premente de gastar para "promover" crescimento. Já discutimos aqui e aqui esta questão da austeridade vs crescimento, pelo que não vamos tão cedo refrescar os argumentos.

O que é importante é esta nova vaga de relutância política às ideias alemãs e como reagirá a Alemanha em função desta nova realidade.

Então vejamos:

- Romano Prodi sugere a criação de um eixo francês, italiano e espanhol para combater a austeridade alemã.

- François Hollande sugere políticas expansionistas e uma certa renúncia velada à austeridade.

- Mario Monti sugere em Itália que todo o endividamento que serve para pagar dívida já existente e novo investimento não deve ser contabilizado no cálculo da dívida pública.

- Mariano Rajoy sugere em Espanha que os ativos tóxicos dos bancos espanhóis sejam canalizados para um banco "mau", limpando o balanço dos bancos e entregando à sorte desse banco "mau" a necessidade de financiar todos esses ativos que são acima de tudo um grande, grande passivo. Sobrará para o BCE e/ou para os cidadãos espanhóis o financiamento deste banco "mau", resultado de todas as asneiras que a banca e o setor privado imobiliário promoveram durante anos.

- Na Grécia, 60% dos deputados eleitos pertencem a partidos que estão contra o pacote de austeridade que a Alemanha exigiu para assinar mais uma livrança de 130 mil milhões de euros.

Basicamente, está tudo a querer aldrabar as regras "à força toda".
A verdade há muito que foi enterrada e hoje luta-se pela sobrevivência, custe o que custar, pisando o que for preciso e quebrando relações de confiança e lealdade para salvar o já.

A moralidade nas relações, bem, essa então já nem se fala, e será precisamente a falta de moralidade associada a um declínio económico generalizado que trará ao de cima os mais degradantes comportamentos políticos e as grandes fissuras do edifício União Europeia.

A super-lógica organizadora alemã não compreenderá estes comportamentos titubeantes e absolutamente incompatíveis com o que foi acordado e assinado ao longo das várias cimeiras europeias dos últimos 2 anos. Eles irão reagir e ameaçarão com a saída do Euro. A Europa tremerá perante tal cenário, e voltará atrás no minuto seguinte, mas o processo continuará a degradar-se até à podridão final.

À Alemanha sugerimos o seguinte:

QUE SAIA JÁ HOJE DO PROJETO DA UE,
BASEANDO-SE NA RENÚNCIA QUE OS OUTROS PAÍSES ESTÃO A QUERER COMETER PARA COM A POLÍTICA DE AUSTERIDADE !!

Os alemães não conseguirão por um lado aguentar por muito mais tempo esta falta de lógica e de compromisso, e por outro, continuar a passar as livranças bancárias para que, políticos de outros países, ganhem eleições dizendo que não concordam com a austeridade proposta pelos alemães.

É demasiado surreal, e impossível de compreender para as suas mentes estreitas por natureza.

O divórcio só é doloroso até se consumar, depois disso, uma nova vida se abre no horizonte.
QUE NÃO SEJA TARDE DEMAIS!

Bastaria a Alemanha sair do Euro para que o fantasma da hiper-inflação se tornasse uma realidade insofismável. Ninguém no mundo quererá ter Euros na sua posse se a Alemanha sair do projeto.
Os 3 triliões de euros impressos pelo BCE nos últimos 2 anos, que em nada consubstanciam a atividade económica europeia, entrariam no mercado de um dia para o outro.

Como isto nos faz lembrar as políticas expansionistas da Alemanha na década de 20 do século passado:
Também eles achavam que a impressão de dinheiro serviria os interesses da Alemanha, tornando o marco alemão mais fraco face à libra e ao dólar, e com isso o potentado industrial alemão, glória da economia, exportaria máquinas e tudo quanto mexe para os EUA, Inglaterra e resto do mundo.
Infelizmente, a realidade prolongou a recessão nos EUA e na Inglaterra um pouco mais do que se esperaria, e lá se foi o sonho alemão. Marcos e máquinas ficaram todinhos em solo alemão sem escoamento à vista. O resto é história:



Tiago Mestre

Ron Paul "limpando" a Reserva Federal


Do cartonista Ben Garrison

Tiago Mestre

Democracia Grega extingue-se hoje pelos corredores de Bruxelas

Caros leitores e leitoras, pedir hoje aos gregos que da sua opinião pública se extraia um governo é exigir, no mínimo, o impossível !

O que aconteceu na Grécia nos últimos 13 anos, desde que entrou para a moeda única, foi a loucura das loucuras. Em nome do crescimento do PIB a qualquer custo, a UE caucionou e promoveu toda a criação de despesa pública grega que não gerou riqueza a médio prazo e apenas deixou dívida, e mais dívida!

O setor público, mais sujeito a escrutínio pelas autoridades europeias, viveu e fez o que quis. Enquanto houvesse credores a comprar obrigações gregas a 10 anos com taxa inferior a 4%, o céu era o limite. E realmente viveram-se anos celestiais, desafiando permanentemente as leis mais elementares da gravidade, sem que nenhum líder político desse por isso e agisse em conformidade.

Hoje são os gregos que pagam as extravagâncias dos seus líderes, e no meio de todo este caos, em que ninguém sabe se é melhor ou pior ficou ou sair do euro, pede-se que opinem, que votem num quadradinho, se querem a paz podre, ou se querem algo de novo que, neste contexto, não se sabe se é o abismo, se a salvação!

Triste figura fez a UE com a Grécia, por total inoperância em tempos de paz e por adiar o que é difícil em tempos de guerra económica e financeira.

Hoje, a ação principal está fora de controle e apenas se gerem os danos colaterais.

A gravidade teria que um dia ganhar à levitação. Já foi tarde, muito tarde.

Tiago Mestre

5 de maio de 2012

Obrigações portuguesas em Abril... uma autêntica montanha russa

Caros leitores e leitoras, o que dizer do gráfico abaixo?


Enquanto que os juros das obrigações dos outros países europeus mantiveram a sua tendência crescente e estável, sobretudo Espanha e Itália, Portugal viveu uma autêntica montanha russa:
Até 16 de Abril, Portugal era a "ovelha negra" das obrigações europeias: muito mais gente a querer vender do que a comprar.

Mas a partir daí "parece" que as obrigações começaram a ser um bom investimento, e de repente Portugal passou a ser um país sério e recomendável. Várias foram as personalidades, sobretudo o Ministro da Finanças, a referirem que este abaixamento reflectia um regresso da confiança dos investidores. Acreditamos que as lideranças não sabiam o que estava a acontecer, e portanto limitaram-se a ir na corrente do momento.
Os media mais uma vez fizeram o seu trabalho: amplificaram a notícia sem escrutinarem o que se estava a passar!

Uops, mas a 28 de Abril voltaram a ter uma tendência de subida, ficando novamente em níveis semelhantes aos do princípio do mês!

Pergunta: Mas porquê toda esta volatilidade?

Basicamente as obrigações portuguesas foram consideradas por um grupo de investidores como um ativo de risco a vender, e por outros como um ativo também de risco mas que do qual se podem retirar dividendos no curto prazo se se comprar, já que a taxa de juro é bastante apelativa. Como há pouca liquidez neste mercado de obrigações, quando "peixe graúdo" atua, grandes mudanças ocorrem..

O blog Zero Hedge deu-se ao trabalho de identificar os participantes desta montanha russa, et voilá:

Quem vendeu em grande até 16 de Abril? Fundo soberano da Noruega

Quem comprou em grande até 28 de Abril?  Dan Loeb e o seu Third Point hedge fund


Resta saber a parte final da história:

Porque é que em 5 dias as obrigações voltaram novamente para valores iguais aos do princípio do mês. Quem é que vendeu à pressa? Zerohedge acha que foi o próprio Dan Loeb, contudo a explicação é algo rebuscada, pelo que ficámos com reservas...

Tiago Mestre

4 de maio de 2012

Podemos aprender com o Estado novo? Ou ainda é tabu? (Parte 3)

Depois do post de ontem que colheu simpatia e certamente algum espanto a muitos leitores, transcrevemos hoje outro texto, mas sobre um assunto muito mais caro à nossa sociedade: a liberdade de imprensa e as justificações da censura.
Boa leitura!

"O Problema da Censura

- Dentro do período eleitoral que, mais tarde ou mais cedo, há-de naturalmente seguir-se a promulgação da Constituição, será permitida a propaganda livre das ideias? Não terá chegado o momento, por exemplo, de acabar com a censura?

- Eu compreendo que a censura os irrite - responde-me o dr. Salazar - porque não há nada que o homem considere mais sagrado do que o seu pensamento e do que a expressão do seu pensamento. Vou mais longe: chego a concordar que a censura é uma instituição defeituosa, injsta, por vezes sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor. Uma digestão laboriosa, uma simples discussão familiar, podem influir, por exemplo, no corte intempestivo duma notícia ou da passagem dum artigo. Eu próprio já fui em tempos vítima de censura e confesso-lhe que me magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários...

Por que não a revoga, nesse caso?

- Não o fazemos pelas razões que lhe direi, mas tentamos reduzir a sua acção ao indispensável. Não é legítimo, por exemplo, que se deturpem os factos, por ignorância ou má fé, para fundamentar ataques injustificados à obra dum Governo, com prejuízo para os interessados do País. Seria o mesmo que reconhecer o direito à calúnia. Os factos são os factos e não pode permitir-se que se ponham em dúvida os actos ou os números que traduzem a própria vida do Estado, se há quem se lembre de fazê-lo, como em Portugal. É uma questão de decoro e dignidade pública. Podem discutir se as directrizes e os princípios de uma política, da política financeira, por exemplo, mas quem é que na Inglaterra ou na Suiça, ou em qualquer país culto, se lembraria de pôr em dúvida as próprias contas do Estado? Chega-se a acusar o Estado, por acinte ou por falta de informações, de não fazer o que já está fazendo ou até de não fazer o que já está feito... Não se justificará a censura, neste casos, como elemento de elucidação, como correctivo necessário? Para evitar o mais possível o trabalho da censura neste domínio, penso em criar um gabinete de informação  a que os jornais poderão recorrer, quando quiserem, para se munirem de elementos necessários à análise, e até à crítica, da obra do Governo. Mas confesso não ter demasiada fé na instituição, porque já fiz uma ligeira experiência que não deu nada. Para evitar mal entendidos, erros compreensíveis, por vezes, em matéria tão delicada como a de Finanças, pus o gabinete do meu ministério, desde a primeira hora do meu Governo, à disposição dos jornalistas que desejassem esclarecer-se. Pois em quatro anos creio que apenas dois se aproveitaram deste oferecimento. Isso não impedia, no entanto, que se continuassem a dizer as maiores barbaridades sobre matéria que não pode nem deve ser sujeita a devaneios ou fantasias.

- Seria esse gabinete de informação, em todo o caso, o primeiro passo para a abolição da censura? - pergunto com certa esperança.

E Salazar, desbravando terreno, caminhando passo a passo:

- Vamos devagar... Temos agora o aspecto moralizador da censura, a sua intervenção necessária nos ataques pessoais e nos desmandos de linguagem. A nossa Imprensa, que tem melhorado consideravelmente, oferecia-nos, por vezes, nalguns dos seus orgãos, a triste imagem dum saguão: intrigas, insultos, insinuações, pessoalismos, provincianismo, baixa intelectualidade. Ora, o jornal é um alimento espiritual do povo e deve ser fiscalizado como todos os alimentos. Compreendo que essa fiscalização irrita os jornalistas, porque não é feita por eles, porque se entrega esse policiamento à censura que também pode ser apaixonada, por ser humana, e que significará, sempre, para quem escreve, opressão e despotismo. Mas vou oferecer-lhes uma solução para este problema, para esse aspecto da questão: porque não se cria uma Ordem dos jornalistas, como se criou uma Ordem dos advogados. Dessa forma, o papel moralizados da censura passaria a ser desempenhado pelos próprios jornalistas e dentro da sua classe. "


Ainda ontem se comemorava o dia da liberdade de imprensa, tendo o Contas publicado um post que relevava a ausência de mediatismo de uma notícia considerada "positiva" para o governo.

A liberdade é um instrumento fundamental na nossa sociedade, mas sujeito a desgaste e a erosão pode acabar por se eclipsar. Cuidado!

Tiago Mestre

Deve o BCE ser credor de último recurso dos estados?


A propósito do debate que o blogue Massa Monetária do Negócios promove com a pergunta:

"O BCE deve ser credor de último recurso dos Estados?"

... e após termos refletido mais um pouco sobre o assunto, consideramos que é realmente uma falsa questão esta suposta "ajuda" do BCE aos Estados. Ninguém pode ajudar ninguém com aquilo que não tem. 

Qualquer deputado ou ilustre representante da vida política que defenda esta ideia está a vender ao povo "gato por lebre". Lamentamos dizer isto, até porque o deputado do PS João Galamba, defensor desta ideia, é tido por nós em boa conta. O escrutínio deste para com o Ministro das Finanças nas Comissões de Finanças do Parlamento revela o seu empenho em fazer o "trabalho de casa".

Sabemos também do desespero dos políticos em captar financiamento para financiar despesas e déficit's, mas quanto mais depressa abandonarmos estas pseudo-muletas, mais cedo arrepiamos caminho.

Remetemos abaixo o nosso comentário publicado ontem no blog do Negócios, com alguns acrescentos:

O BCE possui capital de 80 mil milhões de euros, contributo de cada país da UME. Os seus ativos (tóxicos) caminham para os 3 triliões de euros, o que dá um alavancamento de mais de 30 vezes.
O BCE É JÁ HOJE um banco de últimos recurso, mas sem recursos, porque os países aderentes não conseguem injetar mais capital no banco. Com esta farsa financeira de emprestar dinheiro sem ter capitais próprios, a credibilidade do balance sheet do BCE aos olhos de qualquer consultor financeiro internacional reduziu-se a ZERO.

...Ah, mas o BCE pode imprimir dinheiro...

Pois pode, mas imprimir dinheiro não é a mesma coisa que TER dinheiro.
Parafraseando Adam Smith:
"Creio que, em todos os países do mundo, a mesquinhez e injustiça dos príncipes os tem levado a reduzir gradualmente, abusando da confiança dos seus súbditos, a verdadeira quantidade de metal que as moedas tinham originalmente contido."
Esta explicação retirada do livro " A Riqueza das Nações" pode reduzir-se apenas numa palavra: 
Inflação - excesso de oferta conjugado com défice na procura.

...Ah, mas se não for o BCE a sustentar o financiamento dos Estados, a sociedade e o Estado social colapsam, atirando o povo para a miséria, fome, indigência, etc, etc.

Exatamente. É mesmo isso que acontecerá, só que quanto mais tarde adiarmos a questão, mais irreversível e calamitosa se tornará a sua implementação.
Mais cedo ou mais tarde o sistema FIAT entrará em descrédito pela população por ter sido manipulado vezes sem conta já antes de 15 de Agosto de 1971, mas sobretudo à escala planetária depois desta data em que Nixon aboliu o padrão dólar/ouro (35$/oz).
Desde o acordo de Bretton Woods na década de 40 até aos dias de hoje o dólar já perdeu mais de 90% do seu valor!

Quer queiramos quer não, quem se esquece dos princípios morais e age enganando subrepticiamente o próximo, verá essa iniquidade aparecer mais à frente para o atormentar.

Este assunto não tem que ver com confronto de ideologias de esquerda versus direita. Tem antes que ver com  quem defende os princípios mais básicos da moralidade e quem os repudia. Tudo o resto é entretenimento.

Tiago Mestre

3 de maio de 2012

Podemos aprender com o Estado Novo? Ou ainda é tabu? (Parte 2)

Com este post daremos a conhecer um dos textos que mais nos deixou "sem respiração" do livro que compila as entrevistas do jornalista António Ferro a Salazar.
Juntando a capacidade de previsão de Salazar à época com as comparações daquela realidade internacional com a de hoje tornam o texto uma peça de elevada riqueza sociológica.
Só a permanente bajulice de António Ferro é que era dispensável!

Sentem-se e tragam as pipocas:

Ano: 1933, logo após a Conferência Económica de Londres, que reuniu 66 países na tentativa de conjugarem políticas que os fizessem sair da depressão de 1929-1932.

"Nacionalismo ou Internacionalismo Económico?

Deixámos, há muito, as últimas casas de Santa Comba Dão. Estamos em plena Beira. A paisagem em socalcos, aproveitadinha até aos mínimos repregos, presta homenagem silenciosa e expressiva, ao reformador do orçamento português...
Volto à Conferência de Londres e aos seus problemas:

- É partidário duma política proteccionista aduaneira ou dum franco internacionalismo económico?

E Salazar, sacando dos seus óculos escuros, que o defendem da poeira e da luz:

- Tarifas moderadas, educativas, que não constituam nunca uma proibição nem atmosfera para se desenvolver o parasitismo económico. Eu defendo um nacionalismo económico, sim, mas que não esquece o nacionalismo económico, igualmente legítimo, dos outros países... Eu sei que este escrúpulo, este respeito excessivo pelas necessidades estranhas, não é do nosso tempo, mas julgo, precisamente, que esse egoísmo condenável é a causa fundamental do profundo desacordo económico e financeiro que embaraça a narcha da Europa e do globo. O que falta, sobretudo ao mundo contemporâneo, é aquela indispensável moral internacional, sem a qual não há confiança nem harmonia possível. Compromissos, tratados, acordos são letra morta, em geral, e fazem-se... para fazer alguma coisa, sabendo-se já que não vão ser cumpridos, para entreter, para passar o tempo, como as criancinhas que fazem carapuças ou barquinhos de papel...

Compreende-se lá a desfaçatez com que certos países gelam, repentinamente, os créditos alheios ou desvalorizam a sua moeda a 0 ! A chave da crise, acredite-me, está nesse egoísmo, nessa condenável indiferença pelos interesses dos outros... As dificuldades económicas, quanto a mim, devem ser resolvidas, efectivamente, no quadro nacional, mas subordinando a solução, para seu próprio interesse, a uma necessária colaboração internacional. Essa colaboração, eu sei, obriga-nos, por vezes, a sacrifícios, mas só ela pode trazer a confiança e com esta o novo equilíbrio. Trabalho em obediência a estes princípios, e pago - paga o País, o que isso, por vezes, custa. O único dinheiro que na gerência das finanças públicas tenho a consciência de ter perdido ou de não ter salvo foi o que deixei em Londres, quando do abandono do padrão-ouro. Para mim é certo que a Inglaterra entrou na crise da libra com espírito diferente do que depois veio a ter: abandonou o outro porque não pôde aguentar-se. Eu podia, com pequeno prejuízo, ter feito a transferência de depósitos para outros países. Mas o dever não era, nesses momentos, agravar dificuldades; era evitá-las, por elegância e lealdade. E o mesmo tenho feito, dentro da nossa pequenez, noutros casos e com outros países. Devo dizer-lhe, porém, que me sinto isolado na Europa e que acabarei, possivelmente, por fazer o que os outros fazem...

- Para defender os próprios interesses nacionais... - sublinho.

- Sem dúvida! - replica Salazar com vivacidade - mas bastante contrariado e com pena de que o Mundo não compreenda que essa moral, que ele abandonou, é um ponto de apoio tão necessário à vida das nações como à vida das sociedades. A única forma de remediar a crise de qualquer país enfermo é ter confiança nas suas possibilidades de cura e não olhar como se ele já estivesse morto. Não esqueçamos que as corridas intempestivas aos bancos, quando os bancos não estão falidos, são perigosíssimas, porque podem, efectivamente, trazer-lhes a falência...

Digo com admiração:
- Linguagem nobilíssima, heróica, mas que a nossa época desvairada não pode entender...

E Salazar, com irónica mas triste resignação:
- Tem razão... eu sei que isto já não é do nosso tempo, ou não é ainda do nosso tempo. Foi, porém, assim, não há muitos anos, e as crises não se manifestaram tão agudas nem tão conflituosas. a moral, quer entre os indivíduos, quer entre as nações, é sempre o equilíbrio, a saúde. Vou mais longe: poderá haver moral individual sem haver moral internacional? Que pode fazer uma sociedade que recebe esses péssimos exemplos de tão alto? As relações entre os indivíduos acabam por ser o espelho das relações entre as nações... A desmoralização internacional estimula e justifica a própria desmoralização nacional e individual"


Todos sabemos o que germinava na Alemanha nesta época e como tudo se desenrolou, certo?

Tiago Mestre

Jornal de Negócios - Debate sobre o papel do BCE no Blog Massa Monetária

Chamo a atenção para um debate potencialmente interessante promovido pelo Jornal de Negócios no seu blog Massa Monetária, em que coloca frente-a-frente João Galamba do PS e Adolfo Mesquita Nunes do CDS, a propósito da questão:

"O BCE DEVE SER O CREDOR DE ÚLTIMO RECURSO DOS ESTADOS?"

Dêem o vosso contributo no espaço de comentários..

Tiago Mestre

José Mourinho é português

Sabemos que a andorinha não faz a Primavera, mas quando abordamos aqui no Contas a necessidade premente de Estadistas para governar o país, não nos devemos esquecer que nos últimos anos Portugal teve a honra de "produzir" os melhores treinadores e jogadores de futebol do Mundo.

Não foram precisos subsídios nem fundos comunitários nem apoios estatais. Apenas deixar as pessoas à sua sorte num contexto que premeie o mérito, porque com esforço, trabalho e carácter, muito carácter, eles acabarão por aparecer. Homens e mulheres que não questionam a moralidade das coisas, porque esta está muito acima de qualquer vicissitude ou pressão quotidiana.

É desses líderes e dessa fibra que nós gostamos aqui no Contas.

O pessimismo e a história dizem-nos que, infelizmente, para a política poucos homens entraram, ou se entraram saíram logo de seguida, com qualidades de Estadista, ou seja, líderes natos de homens e mulheres, que se for preciso, os põe a "comer relva".

Aguardamos que chegue esse dia à política!



Tiago Mestre

Governo avança com a renegociação das PPP's, finalmente!

Esta notícia, de extrema importância, passou despercebida nos radares mediáticos de ontem, talvez por ser uma boa notícia para o governo e para todos nós.

Segundo percebemos da notícia, a renegociação refere-se a futuros investimentos que os parceiros tinham já contratualizado com o Estado português no passado.
São as concessões rodoviárias as mais visadas nesta renegociação.

Os contratos atualmente em exploração não foram sujeitos a alteração, pelo que esta medida não configura na prática uma renegociação dos contratos em exploração, ou seja, as margens de rentabilidade ou a eliminação pura e dura de serviços prestados não está em cima da mesa.

Lamentamos que não se esteja a ir mais longe para já, ou seja, que se eliminem unilateralmente serviços que os concessionários prestam às populações, porque mais cedo ou mais tarde tal cenário irá colocar-se.

Sendo hoje o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, não podemos deixar de referir que notícias como esta, que elogiam o trabalho do governo, passam ao lado do radar mediático. A liberdade de imprensa também é isto, decidir se se coloca no ar a notícia A ou a notícia B, sabendo-se que a escolha pode incidir na notícia mais "gulosa" e menos notável. É neste clima de liberdade de imprensa que as redacções dos meios de comunicação fazem escolhas, mesmo que sejam tendenciosas.

Fica do lado do receptor a decisão de escolher o que quer ficar a saber, ou seja, a liberdade de imprensa é uma transferência de responsabilidade do setor especializado para a comunidade.

Para quem desejava que a liberdade de imprensa serviria para termos mais e melhor informação, que se desengane, porque a liberdade é um instrumento ao nosso dispor para decidirmos o que queremos fazer, e nem sempre as redações estão em sintonia com a população, até porque a população também é, ela mesma, variada nos seus gostos e interesses.

Tiago Mestre

Podemos aprender com o Estado Novo? Ou ainda é tabu? (Parte 1)

Caros leitores e leitoras, com esta série de posts pretendemos dar a conhecer o pensamento dominante de António Oliveira Salazar há precisamente 80 anos. Iremos publicar periodicamente excertos de um conjunto de entrevistas que Salazar concedeu ao então promissor jornalista António Ferro, decorriam os anos de 1932 e 1933. São abordados inúmeros assuntos da vida pública nacional, que posteriormente seriam publicados no Diário de Notícias.

"... o superavit e a política fiscal

- Há quem considere provocadora - digo com impertinência - a existência de um superavit de 150.000 contos numa hora que continua a ser difícil, em que se continuam pedindo à Nação pesados sacrifícios...
E Salazar, pegando na bomba sem receio de que ela lhe estale nas mãos:

- É a história do Velho, do Rapaz e do Burro... Se em vez do superavit, houvesse um défice, a indignação, claro está, seria contra o défice. Mas já agora sempre quero explicar-lhe a história desse superavit, que não tem a estabilidade que se julga, que não traduz permanente abundância, nem quer dizer que as receitas normais excedem as necessidades da Nação. O ano foi mau, e aí pelas alturas de Abril eu tive a percepção de que talvez tivesse de fechar as contas com um défice equivalente ao que se gastou, aproximadamente, com as revoluções da Madeira e de Lisboa. Continuei, por isso, a apertar aqui, a forçar acolá, até me encontrar com um superavit quase inesperado para mim próprio. Esse superavit não corresponde, portanto, ao rendimento normal da Nação, e pode até servir ainda  - o futuro a Deus pertence - para compensar um défice que seja impossível de evitar..."

Não só é interessante nestas entrevistas perceber as políticas de Salazar, como também o sentimento dos jornalistas e da população em geral através das perguntas e insinuações de António Ferro.

Tiago Mestre

PORTUGAL - NAÇÃO ( IN ) DEPENDENTE (PARTE 2)

Caros leitores e leitoras, tendo nós lançado um post com a pergunta

" Tem Portugal condições para ser independente da UE? " ,

sabíamos que a resposta não seria fácil, contudo esta "coisa" da blogosfera permite-nos mais uma vez conhecer gente que interessa e perceber como pulsa a nossa sociedade.

Com o comentário que abaixo transcrevemos, Filipe Silva mostra que o cidadão comum pode ter uma opinião realista, estruturada e potencialmente de difícil digestão para pessoas mais sensíveis.


Para tomar as decisões que o Filipe sugere, bastará coragem e querer falar verdade aos portugueses. A inteligência, essa já temos de sobra em Portugal, e com frequência usada em tudo menos para a ação.





"A pergunta é de muito difícil resposta.

Nunca foi feito, não é o mesmo que mudar o nome à moeda como foi feito no Brasil, por exemplo, é abandonar uma zona monetária, não é a desagregação de um país, ainda para mais numa situação de grande incerteza mundial.

A vantagem é a velocidade do ajustamento. 
Sinceramente esta mudança radical teria de ser operada com outros players políticos, existe demasiada demagogia na assembleia da república.

Para ser bem sucedida uma operação destas, tem de existir consenso nacional, o cidadão tem de perceber o que esta medida acarreta, só por referendo deve ser a medida tomada, as ditas elites já demonstraram a sua incompetência, e esta medida no curto prazo iria criar muitos problemas ao povo português.

O que faria Eu, se mandasse, negociaria com a UE fundos para a saída a investir em renovação da frota pesqueira e aumento da produção agrícola.

Negociava com Angola, Timor e Brasil, o auxílio destes países sobre as nossas necessidades energéticas, para assegurar que não existiria falta de energia.

Negociaria com países produtores de bens alimentares, o suprimento das eventuais necessidades do país

Objectivo: não existir fome e falta de energia no país.

A saída implicaria também a renegociação do contrato social do Estado com a sociedade, os beneficios hoje dados pelo estado teriam de ser revistos e a maioria eliminado, 

Ao realizar tal medida, o país iria fazer o default total das dividas, menos a investidores privados internacionais, vou necessitar destes mais tarde.

A situação ficaria muito má muito depressa, mas se o pós apocalipse se for bem gerido a recuperação será fulgurante, liberalizando tudo e oferecendo aos investidores externos condições que mais ninguém oferece para investir e comprometendo me a pagar as dividas a estes.

É algo que tenho reflectido, mas muitas coisas me escapam, e não sei o que é melhor, mas acredito que o € irá acabar e devíamos enquanto país, diversificar o risco, e não apostar tudo no mesmo cavalo. A protecção da saída devia estar a ser salvaguardada, o Importante é não haver fome e falta de energia, assim salvamos o máximo de pessoas e aceitar que uma saída irá levar à morte de muita gente (como a política da austeridade de hoje irá fazer) o macabro é que este acontecimento irá tornar o nosso problema menos grave..."

Estado e banca estudam mecanismo legal para entrega da casa ao banco

Caros leitores e leitoras, num caso de rara "premonição", um dos nossos ilustres leitores e comentadores (Vivendi) trouxe, a propósito do debate da sentença do tribunal de Portalegre, um interessante comentário neste post de 29 de Abril, de que em Portugal deveríamos seguir o modelo espanhol como forma de estruturar um conjunto de boas práticas para que casos como este não fiquem à mercê da liberdade de decisão do juiz.

Hoje soubemos pelas notícias de que a situação já está a ser estudada e há abertura da banca para seguir este caminho.

Remeto abaixo o comentário de Vivendi a 29 de Abril:

"Agora a moda vem de fora, em Espanha já é prática, aconteceu também na Islândia e não sei muito mais pois os nossos media são sempre cinzentos para casos que beneficiem mais o cidadão do que os poderosos.

A medida espanhola: (o BES ficou de fora)

a maioria dos bancos espanhóis (89) aderiram ao código de boas práticas bancárias lançado pelo governo de mariano rajoy. entre as medidas contempladas pelo executivo está a possibilidade de as pessoas poderem entregar a casa ao banco para saldar a dívida contraída com a concessão de um contrato à habitação, uma possibilidade que não é extensível a todos os clientes

segundo o diário económico (de), até agora, e à semelhança do que acontece em portugal, a dação em pagamento permitia apenas saldar a parcela correspondente ao valor de avaliação do imóvel. por exemplo, se o valor em dívida fosse de 100.000 euros e o imóvel entregue ao banco fosse avaliado por 80.000 euros, teria de ser o contribuinte a saldar os 20.000 euros em falta. regras que acabavam por ser insustentáveis para muitas pessoas. um cenário que pode, agora, mudar de figura

sublinhe-se, no entanto, que esta nova medida aprovada pelo governo não se estende a todos os clientes que não consigam saldar as suas dívidas. as condições para se poder entregar a casa ao banco para saldar incumprimentos com a prestação da casa são as seguintes: todos os membros do agregado familiar em idade activa devem encontrar-se em situação de desemprego; o valor de avaliação do imóvel deve ser superior a 60% da dívida por saldar; o imóvel tem de estar registado junto do banco como primeira e única habitação; o preço de mercado não pode exceder os 150.000 euros"


Fica assim evidenciada a capacidade da blogosfera, de forma totalmente independente, e para não dizer solitária, em conseguir abordar questões do direito jurídico tão complexas como esta e trazer para a luz do dia informações tão relevantes com uma "antecipação mediática" de 4 dias.


Para quem se interessa por estas questões pode revisitar o post acima referido com 9 comentários que enriquecem o debate,  bem como o 2º post onde analisamos a decisão do juiz baseando-nos no próprio acordão do tribunal.


Para já, a ideia de estruturar um conjunto de regras parece ganhar força, pelo que nos parece ser talvez a opinião mais equilibrada em lidar com um assunto tão delicado do ponto de vista social/moral e complexo do ponto de vista jurídico.


Tiago Mestre

2 de maio de 2012

... Hugh Hendry merece a nossa maior admiração

Caros leitores e leitoras, o gestor de hedge funds Hugh Hendry traz-nos de novo ideias de absoluto rasgo intelectual e cultural.

Zerohedge promove mais uma vez o esclarecimento do cidadão comum, recorrendo aos melhores para nos explicar o que se está a passar.

Conferência aqui

Não resistimos a traduzir uma passagem:

"Os governos europeus já entraram em incumprimento, mas para com os cidadãos, por falharem no que tinham prometido que iriam fazer, mantendo os seus compromissos para com os credores."

Tiago Mestre

PORTUGAL - NAÇÃO ( IN )DEPENDENTE

Apresentamos abaixo alguns gráficos para vossa análise sobre a economia portuguesa, e deixamos uma pergunta aos ilustres leitores e comentadores do Contas:



Nota: Valores a preços correntes, ou seja, não foi descontada a inflação, pelo que em termos reais a evolução é menos positiva

Nota: Valores a preços correntes, ou seja, não foi descontada a inflação, pelo que em termos reais a evolução é menos positiva

Nota: Valores a preços correntes, ou seja, não foi descontada a inflação, pelo que em termos reais a evolução é menos positiva

Fonte: INE


PERGUNTA:
Se Portugal sair do euro, reestruturar a sua dívida e não haver financiamento externo nos próximos anos, terá Portugal condições PARA ASSEGURAR A SUA SOBREVIVÊNCIA COMO NAÇÃO INDEPENDENTE? 

Ou teremos que adiar esta decisão, e por quanto tempo?

Ou será já tarde de mais, e mais vale continuar de mão estendida pela Europa fora?

Tiago Mestre

1 de maio de 2012

Juiz decide substituir-se aos contratos livremente assinados (Parte 2)

Tendo este post sido objeto de uma boa discussão aqui no Contas no espaço de comentários, decidimos fazer novo post para relevar as decisões que foram proferidas pelo acórdão do juiz de Portalegre e pelas opiniões do juiz Rangel e do Bastonário Marinho Pinto, proferidas ontem no programa Justiça Cega, transmitido na RTP Informação.

Eis a justificação do juiz para "anular" o remanescente que o banco exigia ao devedor:

 "Os juros contraídos e a suportar pelos inventariados e a hipoteca são imediatamente 
derivados do valor patrimonial do valor atribuído ao imóvel de 117.500,00€, no sentido em 
que aquele valor  acerta o montante da remuneração do empréstimo e  determina o 
funcionamento jurídico da garantia real.

O credor, mercê de um processo judicial executivo legítimo e válido, dispõe agora 
de um bem pela quantia de 82.250,00€, pretendendo manter-se na titularidade activa de um 
crédito funcionalizado ao valor do bem de 117.500,00€.

Entre a posição de mutuário e a posição de adquirente do Banco …, S.A. subsiste 
uma diferença de 35.259,00€ (trinta e cinco mil e duzentos e cinquenta e nove euros) para 
um mesmo bem imóvel.

Este exercício, apesar de regular na aparência do Direito adjectivo – aquisição por 
70% do valor patrimonial, afigura-se-nos que acarreta uma consequência iníqua ao nível do 
direito substantivo que seria a circunstância de os inventariados se obrigarem a um 
complexo de créditos em função de um valor da coisa (valor esse participado pelo credor 
no processo negociativo e em instância executiva), ficarem na indisponibilidade desse bem e manterem-se na obrigação de pagamento por incumprimento de mútuo de escopo no valor 
total 117.500,00€. 
[...]Os inventariados são hoje devedores de uma determinada quantia para aquisição de 
um bem do qual já não dispõem e que  reverteu ao credor da dívida por um valor 
substancialmente inferior àquele que configura a sua obrigação e que consubstanciou a 
materialidade subjacente da relação contratual: o valor patrimonial de 117.500,00€. 
É a este valor do bem, mercê da aquisição pelo credor hipotecário, que deve ser dada 
primazia pela materialidade subjacente na tutela judicial."


Segundo percebemos, o juiz assume que o valor patrimonial da habitação é e será SEMPRE de 117.500,00€ para efeitos de "funcionamento jurídico da garantia real", independentemente da habitação ter sido avaliada posteriormente em 82.250,00€ e o banco a ter aceite por esse valor como forma de abater a dívida.

O que isto quer dizer é que o que conta para o tribunal é o valor do empréstimo, consubstanciado no valor do imóvel à data da assinatura do contrato. Se o imóvel, hipoteca do empréstimo, desvaloriza à posteriori, fruto da quebra do mercado imobiliário, é irrelevante para o caso.
Paralelamente, a obrigação no pagamento do remanescente possui um carácter iníquo por se exigir ao devedor o pagamento de um valor referente a um imóvel que este já não possui e não usufrui.

No programa Justiça Cega, o Juiz Rangel pronunciou-se a favor desta decisão, mesma que esta possua algumas falhas ou erros (palavras dele), realçando o carácter humano e social que os juízes devem ter na análise de casos desta natureza.
Marinho e Pinto pouco falou, referindo que ainda não tinha lido a decisão do juiz e que pronunciar-se-ia após a sua leitura.

Perante a explicação do juiz de Portalegre, ficamos na dúvida sobre o que pensar...
Agradecíamos os vossos comentários para ver se formamos uma opinião mais realista.

Tiago Mestre

Dia do Trabalhador - Dia da Produtividade

Por coincidência vasculhávamos o site do INE à procura de informação e surgiu uma comparação entre países da UE27 acerca da produtividade por hora trabalhada.

Sendo hoje o dia do Trabalhador, nada melhor do que falar em produtividade:

Fonte: INE

1ª Pergunta: Serão os salários uma função destes indicador?

Se assim o for, então falar em aumento ou diminuição de salários é ridículo. Ganhamos em função do que conseguimos produzir enquanto sociedade.
Esta é a versão de Adam Smith tão bem explicitada no seu livro "A Riqueza das Nações"

2ª Pergunta: Ou será o seu contrário?

Então neste caso bastaria aumentar salários, como exigem as centrais sindicais e a ideologia mais à esquerda, para vermos a produtividade aumentar, certo?

Tiago Mestre

Dêem à austeridade uma chance: vá lá! (3º e último post: Espanha)


Spain
 
This might be the most interesting chart of them all.  Spain used a period of strong economic growth to reduce the debt to GDP.  That is probably a more impressive case for how growth can reduce the debt, rather than a case of austerity helping growth.  The debt to GDP ratio is low in any case, but Spain does seem to push  more on to regional governments than other countries and has been a big fan of guarantees rather than actual debt, so that should be kept in mind.
Then in early 2008, growth dropped significantly.  It was definitely experiencing problems a bit earlier than other countries.  It swung to big declines in GDP that were only reversed when the global economy turned, and with excessive spending – just like Italy. 
The weird thing about Spain is how growth failed to take hold in 2010 even as spending increased.  In fact, spending continued to increase, yet growth didn’t materialize.  It wasn’t again until at least the middle of 2011 that any form of austerity was happening in Spain, yet the failure to “grow” in response to spending occurred earlier.
Certainly some of the same explanations that apply to Italy, apply here, namely that too much money was spend to hide a problem, rather than address it, so growth didn’t follow spending, and now the debt burden is impeding everything.  Maybe there is some element of payback for the huge deficit spending designed to get the economy growing again, that just didn’t work longer term?
Spain has the added question of whether the growth in the early part of the decade was too high, and since Spain and Spanish banks have done everything to avoid recognizing the bursting of the property bubble, maybe the downturn in growth occurred much earlier, or the 2008 recession was much worse, and it is only now slowly but surely being leaked into the data.
Spain raises many issues, but after the massive increase in spending for growth in the 2009-2011 period failed to achieve a meaningful growth rate, and let debt continue to pile up, maybe 1 quarter of a new government, whose policies have barely taken force, should be given a bit more time, before embarking back on the failed policies of growth at all costs that have helped create the problem.
Conclusion
Neither spending nor austerity is universally good or bad.  Each has short term consequences and potential long term consequences.  Bouncing back and forth between them is highly unlikely to produce a useful solution.  A plan needs to be developed.  It needs to minimize short term pain of austerity while ensuring future obligations that are manageable.  Obviously neglected areas where some spending has an incredibly high likelihood of generating more growth than it costs should be targeted, but assuming it is easy to achieve growth is a fallacy.  Finding the right investments to get long term growth is difficult.  And long term is the key here.  Austerity will hurt GDP this quarter, and maybe next.  Spending will help this quarter and next, but without taking into account future constraints caused by debt service and debt repayment, the spending will only make things worse.  This is a difficult time.  It took years, if not decades to create this mess, and will take years to fix, and spending alone won’t help, because growth is not that easy to find.  If it was, there would be 1000’s of companies like AAPL, but there aren’t, and it is less likely the government will find growth than companies.  Sadly, it seems like the politicians, media, and the markets have latched on to the idea that growth Is the key and is highly likely to be successful.  Kicking the can was a disaster for Greece as the situation got worse and worse, and is still awful, and Europe is now heading down this path under the hallucination that they can create growth above and beyond the debt created to achieve it.