11 de abril de 2012

OCDE só acrescenta ruído.

Tendo bem cedo dado uma vista de olhos pelos jornais, saltou-nos à vista a capa do I.

"OCDE: Troika deu estocada final à economia portuguesa"

Mais banalidades informativas que só provam que todos estes mega-organismos mundiais pouco mais sabem do que publicar estatísticas sobre o passado. Pelos vistos a OCDE publica um índice de crescimento de cada país, em que o valor 100 significa a fronteira entre crescer ou diminuir, e Portugal passou de 103 para 97 num ano.

Ainda ontem nos indignávamos com as conclusões do FMI, em que basicamente se contradiz TOTALMENTE com o que afirmou há 1 ano quando iniciou funções em Portugal.

No início era a austeridade - cortes na despesa e aumento da receita - que traria de volta o crescimento ao país.

E então vêm agora dizer que afinal a receita "não presta" porque aniquila a economia?

Ao governo português não poderão culpar, porque segundo o relatório da 3ª avaliação da troika, Passos Coelho cumpriu com o que se lhe exigia.

Como não foi possível terem percebido esta correlação EVIDENTE entre consumo público e PIB ??
Ou foi por incompetência
Ou foi a esperança num milagre no futuro
Ou foi apenas para salvar o momento

Qualquer uma destas conclusões dá um nervoso miudinho, sobretudo quando aqui no Contas tínhamos já a clara consciência de que a redução do setor público teria que dar em quebra do PIB.
É uma valente chatice esta correlação, preferíamos que não existisse, mas a matemática de 6 º ano do ensino básico diz-nos que não é possível contrariá-la.

Na altura a OCDE não se pronunciou (presumimos nós), mas passado 1 ano e depois de muitas evidências, já se junta ao coro daqueles que afirmam que afinal a austeridade mata a economia.

É CLARO QUE MATA A ECONOMIA, MAS INFELIZMENTE TEM QUE SER ASSIM PARA LIVRAR O PAÍS DO JUGO ESTATAL.

É preciso fazer um desenho?

Tiago Mestre

10 de abril de 2012

ESPANHA E PORTUGAL - IRMÃOS IBÉRICOS (PARTE 2)

Até nós aqui no Contas, céticos às aldrabices políticas, acreditávamos que o programa LTRO, com todas as consequências indiretas negativas que acarreta, estivesse para durar mais algum tempo. Se contarmos desde o 2º leilão, realizado no final de Fevereiro, apenas 1 mês e pouco passou.

Os sinais que se começam a evidenciar nos juros das dívidas soberanas de Espanha e de Itália indiciam que os quase 900 mil milhões de euros emprestados pelo BCE se esfumaram num ápice. A 10 anos a dívida espanhola já roça os 6%.
Sem anúncios espetaculares e vistosos vindos do BCE ou da Alemanha que tudo está resolvido, a Primavera entra com temperaturas já de Verão.

Ficamos a aguardar pelas seguintes efemérides, recorrendo aos exemplos do ano passado:

- Regresso do BCE às compras de dívida no mercado soberano;
- Conselhos europeus e cimeiras europeias a cada 15 dias, de preferência ao fim de semana;
- Rumores e devaneios informativos sobre potenciais reforços dos fundos de resgate e demais milagres financeiros;
- Recuos da Alemanha e avanços do BCE.

Se a crise se agravar verdadeiramente, ou seja, se o fundo de resgate ESM se tornar insuficiente e o BCE for travado pelo Bundesbank para as necessidades de financiamento da Espanha, da Itália, da Bélgica, e quiçá da França, não acreditamos que a Alemanha tolere mais garantias à Europa e as portas de saída do euro para alguns países começam a ser mostradas.

Publicámos um post a 30 de Janeiro 2012 em que se contabilizam as garantias que a Alemanha já passou ao resto da Europa:

Tudo somado, os encargos e as garantias roçam os 900 mil milhões de euros, ou seja, 35% do PIB alemão.

Qual será o rácio que os obrigará a dizer BASTA? Não sabemos, mas já estivemos mais longe desse cenário.

Tiago Mestre

Queríamos compreender o FMI, mas não está fácil !

Tivemos a oportunidade de ler no jornal i de ontem um artigo sobre as considerações do FMI decorrentes da 3ª avaliação da troika ao programa de assistência português.

Resumidamente, o FMI pede ao governo português que adopte medidas que estimulem a economia portuguesa. E mais, sem essas ações, Portugal arrisca-se a não conseguir corrigir a queda do PIB destes últimos anos.
O abaixamento da taxa social única (TSU) seria uma das medidas a considerar como essenciais ao tão desejado estímulo.

Nem sabemos bem por onde começar:

1. O FMI, constituído por "carradas" de economistas, continua a sugerir que o Estado é um ator essencial no estímulo às economias privadas. Não é, mas até pode ajudar no processo de recuperação da economia quando um país cai em recessão, mas não passa disso, uma espécie de catalisador que acelera a recuperação. Cabe sempre à economia privada puxar pelo país porque é quem produz alguma coisa.

Pressupor que tem que ser o Estado a salvar a economia é abusar das teorias keynesianas e um insulto para o próprio Keynes, que deve andar a rebolar na campa com tanto abuso e distorção das suas teorias.


2. A redução da TSU terá sempre que ser acompanhada de uma de duas medidas: ou se reduz despesa ou se aumentam outros impostos que não a TSU. Até nesta constatação José Sócrates foi basilar há 1 ano: "tem que se ver se é possível acomodar essa redução de receita, e só depois se decidir". O FMI se quer a redução da TSU de 23,75% para outro valor qualquer tem que indicar como se compensa a diferença. Só desejar não chega.


3. O FMI quis acreditar em 2011 que a austeridade e o crescimento económico poderiam andar de mãos dadas em Portugal. Desconhecemos as variáveis económicas utilizadas nessa conceptualização, mas tanto quanto sabemos e sabíamos na altura, o PIB de Portugal é constituído por 5 variáveis:

PIB = consumo público + consumo privado + investimento privado + exportações - importações

O consumo público (Estado) significa hoje metade do PIB. Se mexemos no consumo público, mexemos no PIB, não há volta a dar.
A austeridade que foi implementada actuaria inevitavelmente no consumo público e no privado. Por arrasto o investimento também se retraiu por falta de confiança dos investidores em Portugal. Salvaram-se as exportações e reduziram-se as importações, e foram apenas estas 2 rúbricas que ajudaram o PIB.

Como poderia o FMI esperar que o PIB pouco se ressentisse quando exigiu ao Estado que reduzisse o défice de 10% do PIB para 2 ou 3% do PIB em 3 anos?
É que uma redução destas significa um corte na despesa pública (partindo do pressuposto de que o ajustamento será 1/3 de impostos e 2/3 na despesa) sempre superior a 8, 10 mil milhões de euros. Este é um valor que, grosseiramente, se deve descontar ao PIB português, que só por isto baixa de 170 para 160 mil milhões.
E com o PIB a baixar, o rácio do Défice público = (receitas - despesas)/ PIB também se agrava, na medida em que o PIB se apresenta no denominador.

Grosseiramente, o PIB de Portugal é constituído por 75% de serviços, 23% de indústria e 2% de agricultura. Ou seja, quase todos nós trabalhamos, directa ou indirectamente, para o Estado. É ele o grande cliente de Portugal, e se espirra, a economia apanha uma constipação, senão mesmo uma pneumonia.

Como foi possível escaparem ao FMI evidências destas? Fica a nossa incredulidade!

Para quem só recentemente nos acompanha, escrevemos exaustivamente sobre esta matéria em Julho e Outubro 2011 com os posts 1, 2 e 3 intitulados: "A Matemática costuma ganhar, às vezes tarde demais!"

Tiago Mestre

9 de abril de 2012

Com uma economia a encolher, toca de imprimir para compensar a diferença !

Há gráficos que valem por mil palavras:

Cortesia de uma publicação da Tedbits

Toda esta impressão generalizada não deve agradar a nenhum banqueiro central, acreditamos nós, mas então porque é que a linha sobe de forma exponencial? Basicamente porque os governadores dos bancos centrais renunciaram aos seus princípios morais e económicos, tornando-se "fantoches" dos desejos e exigências das lideranças políticas, sem capacidade de dizer: NÃO!

Os bancos centrais tornaram-se o substituto do (ausente) crescimento económico no financiamento das crescentes despesas do Estado.

Já todos sabemos que imprimir significa inflacionar preços, mas esse é um "mal menor" quando a classe política se depara com uma incapacidade crónica de recolher dinheiro para pagar as suas despesas.

Esta é a consequência natural de um esquema de Estado em que despesas fixas tendencialmente crescentes são financiadas com receitas que dependem do desempenho da economia. Com declínio económico, o sistema colapsa, mesmo que o governo tente à pressa reduzir despesa. A velocidade dessa redução será quase sempre inferior à destruição de riqueza.

Tiago Mestre

Justificação para a suspensão "silenciosa" das reformas antecipadas - reminiscências da 4ª pedra no sapato

Ouvimos nós há uns meses na Antena1, num programa radiofónico com o jornalista Fernando Dacosta, uma sábia frase proferida por um ex-diretor do Diário de Notícias da década de 50 ou 60, não podemos precisar:

"Não digas mal demais de nenhum político porque um dia poderás ter que dizer bem, da mesma forma que nunca digas bem demais de um político porque um dia poderá ser necessário dizer mal."

É neste limbo e com recato nas palavras e nos adjetivos que tentaremos comentar as afirmações de hoje de Passos Coelho acerca da medida de suspensão de reformas ter sido elaborada no maior dos silêncios durante uma semana:

1. Referia hoje Passos Coelho de que a pertinência da medida se insere num quadro temporal em que muita gente está a pedir a reforma, mesmo com a respetiva penalização por ser antecipada, e tal avalanche de pedidos prejudica as contas da segurança social para o ano fiscal de 2012.

2. O modo silencioso com que tudo foi preparado justifica-se também pela necessidade de não se assistir a uma corrida antecipada aos pedidos de reforma, prejudicando ainda mais o carácter da medida.

Sobre a primeira afirmação, o governo reconhece indiretamente que o que previu para 2012 em termos de custos com a segurança social foi um cenário demasiado otimista em função do que a realidade está a demonstrar neste primeiro trimestre. Errou-se na previsão, tudo bem, mas como qual o modo de correcção? Suspendendo unilateralmente um direito que estava consagrado na legislação.
Desta forma o governo passa a mensagem que em qualquer momento pode alterar qualquer legislação que esteja a prejudicar a sua condução orçamental, independentemente da justeza da medida.

A segunda afirmação revela que o governo prevê a reação das populações e adapta-se a essa circunstância. Não tendo já força e credibilidade para cativar as populações através da verdade e da moralidade, nada como efetuar medidas sem dar a oportunidade às populações para decidirem o que é melhor para elas em função do que espera do governo.
O povo tem o direito natural, consagrado em qualquer república e reforçado em qualquer democracia de conhecer previamente e de se pronunciar acerca das decisões emanadas dos que foram eleitos, adaptando-se de seguida face ao que o governo quer impor.

Percebe-se que a necessidade desta suspensão é para que a segurança social não colapse já nos próximos meses, e com esse cenário em cima da mesa, todos os meios servem para justificar qualquer fim. É o desespero a falar.

Puxando a fita atrás:
A segurança social (Caixa de Previdência e outras) era na sua origem meramente um mecanismo de transferência temporária de riqueza do trabalhador para o Estado, sendo este ressarcido posteriormente com o dita reforma.
Hoje a segurança social tornou-se é um instrumento político de confisco de riqueza à população ativa, sob uma promessa infundada de que um dia mais tarde se irá receber uma reforma. Como todo o político gosta de deitar a mão ao dinheiro alheio, sobretudo aquele que está parado, incorporaram-se ao longo destas décadas despesas como os subsídios de desemprego, RSI's e outros instrumentos políticos de caça ao voto, todos eles a "mamar" deste fundo.

As considerações e adjetivações sobre o acima exposto ficam à consideração de cada leitor.
Aqui no Contas, ficamo-nos pela: Abjeção moral.

Tiago Mestre

8 de abril de 2012

O que a Autoridade da Concorrência tem para nos dizer sobre o aumento de preços dos combustíveis

Sempre que o aumento do preço dos combustíveis atinge o ponto de notícia mediática, cerram-se as fileiras políticas e surgem os argumentos, quer do lado de quem está no poder, quer do lado de quem está na oposição.

Ainda há 2 semanas ouvimos num canal noticioso público uma jovem (talvez demasiado jovem) deputada do PSD que, com o seu belíssimo sotaque do Norte, apregoava que esta questão do preço deveria ser "equacionada" com o reforço de poderes da Autoridade para a Concorrência.

Estávamos nós a ouvir a sua explicação e quando a argumentação se inclinou para este reforço de poderes da Autoridade da Concorrência, até nos apeteceu dizer: "Cuidado com o que vais dizer porque essas afirmações podem sempre revelar-se insinuações de que há cartelização de preços."

Sugerir este tipo de ideias é perigoso, e mais perigoso se torna quando é sintetizado em 2 ou 3 minutos, alimentado sobretudo pela ignorância e falta de humildade em reconhecer a complexidade da situação.

Antes de escrevermos este post ouvimos com atenção a última audição do Presidente da Autoridade da Concorrência na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas no dia 4 de Abril, e saltam algumas conclusões:

- A autoridade da Concorrência possui poderes disciplinares para atuar em caso de violação das regras da concorrência e fixação de preços. Não precisa de mais poderes;

- Desde 2005 que nunca atuou por nunca ter encontrado indícios que sugerissem a abertura de um processo dessa natureza;

- Das investigações realizadas chega-se à conclusão que a fixação de preços dos combustíveis líquidos não é sujeita a cartelização nem a fixação manipulatória de preços, antes correlacionada de forma cabal com a formação de preço emanada da praça de Roterdão, onde se forma o preço dos combustíveis à saída da refinaria e do custo adicional pelo transporte até ao nosso país.

Estas afirmações não foram refutadas por ninguém da comissão, muito menos pelos responsáveis do PSD. Houve sim questões pertinentes do lado do PCP sobre a formação desse mesmo preço em Roterdão, e eventualmente a forma opaca com que tal preço é formado e por quem o forma.

Fora isso e mais algumas nuances, como a diferença de preço entre as bombas low cost e as de algumas Auto-Estradas, o que manda mesmo na variação dos preços do gasóleo e da gasolina é o barril de Brent transacionado em Londres.

Esta conclusão da Autoridade da Concorrência a nós aqui no Contas não nos surpreende, na medida em que tem sido esse o foco nos nossos posts sobre o preço dos combustíveis. Não excluímos a hipótese de que mais e melhor poderia ser feito pela Autoridade da Concorrência, e com isso talvez até se conseguisse baixar um pouco mais os preços, mas não é isso que verdadeiramente explica este fenómeno.

O fenómeno de aumento generalizado dos preços de combustível explica-se pelos seguintes motivos:

1. Aumento muito pouco significativo da produção de petróleo pelos principais produtores mundiais desde 2005;

2. Redução de consumo no mundo ocidental não neutraliza o aumento dos países emergentes;

3. Volatilidade política em países produtores (Síria, Líbia, Sudão, Yemen, Bahrein, Iraque, Irão) adensa o risco da falta de fornecimento sem haver capacidade produtiva excedentária que compense estas falhas.

4. Injeção massiva de moeda pelos bancos centrais nos mercados europeus e norte-americanos sem uma correlação com o aumento das respetivas economias.

Este último fator é mais difícil de detetar porque apenas se revela de forma indireta, na medida em que os bancos centrais ao emprestarem dinheiro aos banqueiros privados, estes investem-no de forma discricionária nos ativos que consideram trazer maior rentabilidade para o seu banco. Uns apostam em investir na economia e nas empresas, outros compram ações, e outros compram contratos futuros de petróleo. Basicamente perde-se o rasto ao dinheiro.

Sobre as declarações da deputada do PSD, sugerimos ao canal público que reflita sobre estas atoardas informativas que comentadores vão fazendo diariamente sem o menor escrutínio pelo(a) jornalista que modera estes painéis.
Que haja políticos que queiram viver na ignorância e rigidez ideológica, pouco poderemos fazer para alterar, mas é sempre de evitar transpirar estas ideias para os cidadãos que, na sua ignorância, formam uma opinião pública mais desinformada do que esclarecida.

Tiago Mestre

Eis o suposto mecanismo de solidariedade interbancário europeu!

Caros leitores e leitoras, da pouca informação que sai dos canais noticiosos acerca dos empréstimos que o BCE concedeu nestes últimos meses aos bancos europeus, dificilmente se percebe alguma coisa. Ter escrito este artigo serve sobretudo para tentar esclarecer quem se interessa pelo assunto e quem ainda não juntou todas as peças do puzzle:

Em Dezembro de 2011 e em Fevereiro de 2012 o BCE promoveu um leilão de crédito para qualquer instituição bancária europeia que se quis candidatar. Para tal, esta deveria possuir activos considerados como colateral, ou garantias, para obter esses mesmos empréstimos. O mecanismo foi denominado LTRO (Long Term Refinancing Operations)
As garantias exigidas pelo BCE vão desde activos classificados como AAA até às obrigações gregas CC, o que é o mesmo que dizer que qualquer ativo tóxico serve.


Com estes 2 leilões o BCE injetou quase 900 mil milhões de euros no sistema bancário. Como comparação, o PIB de Portugal são 170 mil milhões!


Tanto dinheiro fresco à disposição dos banqueiros teve que se revelar em alguma coisa. Basicamente serviu para comprar mais dívida soberana, consequência que Mario Draghi e Vitor Constâncio tanto desejavam, mas também serviu para adquirir contratos futuros de petróleo, ouro, commodities, etc.
Já estas aquisições são algo que Draghi/Constâncio não gostam porque provocam a desvalorização do euro e o aumento dos preços dos bens (inflação).

Paralelamente, os banqueiros deixaram de desconfiar tanto entre si devido a esta injeção massiva de dinheiro no sistema bancário, aliviando o nervosismo que pairava no ar. Mas tal injeção monetária é uma tentativa manipulatória do BCE em querer "conduzir" o sistema bancário da forma que considera a melhor para a UE.
O esquema montado para estes leilões foi definido da seguinte forma:

1. Os bancos privados pediram os empréstimos aos bancos centrais nacionais;
2. Estes por sua vez pediram ao BCE;
3. O BCE concedeu o montante aos bancos centrais nacionais que por sua vez emprestaram aos bancos privados;


Desta forma, os bancos centrais nacionais agiram como intermediários do negócio, ficando estes a dever ao BCE. Este mecanismo não é novo, contudo foi usado no passado recente para montantes muito mais pequenos, maturidades mais curtas, juros mais elevados e exigências na concessão mais apertadas. O programa de empréstimos via bancos centrais nacionais denomina-se TARGET2.

Mas como em todas as manipulações, surgem sempre as chamadas consequências inesperadas ou não previstas:

Como é sabido, foram os bancos privados dos países mais periféricos que mais dinheiro pediram, certamente devido à condição financeira do seu país e à descrença dos investidores estrangeiros. Tal fenómeno criou um desequilíbrio de crédito ainda maior dentro da UE, na medida em que foram os bancos dos países mais pobres que mais dinheiro pediram, ao contrário dos bancos dos países mais ricos, que pouco participaram no esquema LTRO.
A título de exemplo, o Deutsche Bank, talvez o maior banco privado alemão e dos maiores do mundo, não participou neste programa LTRO.

Sendo o BCE uma espécie de congregação de todos os bancos centrais dos países do euro, este financia-se e é comparticipado por todos  estes bancos, sendo que a importância relativa de cada um varia enormemente. O Bundesbank é o banco nacional com maior participação no BCE, aproximadamente 25%, seguindo-se do Banco da França e assim sucessivamente.

Numa frase: o Bundesbank financiou os outros bancos centrais por intermédio do BCE.

Com esta explicação fica mais ou menos claro que quem mais tem a perder com estes empréstimos são os bancos com maior exposição ao BCE e que menos dinheiro pediram para os bancos privados do seu país. O Bundesbank  é sem dúvida o mais prejudicado.
Todo este esquema financeiro só se mantêm de pé porque não se equaciona a saída de nenhum país da zona euro. Mas caso haja rebeldia soberana, o BCE não possui mecanismos legais para ir atrás do dinheiro que os bancos nacionais lhe ficarão a dever, e imaginem quem mais ficará a perder? O Bundesbank, claro!
Com a cortesia do site SoberLook, evidenciamos abaixo o balanço das contas do Bundesbank:

Se o Bundesbank passou a ter 576 mil milhões de crédito por reclamar para com entidades dentro da UE (bancos centrais dos países mais pobres) em Fevereiro de 2012, já os seus compromissos como devedor não ultrapassam os 16,7 mil milhões. Assim se percebe a posição do Bundesbank relativamente aos restantes bancos centrais: altamente credor e pouco ou nada devedor.
E o que pode fazer o Bundesbank para evitar tais responsabilidades financeiras? Pouco ou nada, porque quem manda é o BCE, e se este decide trilhar este caminho, o banco rico terá que o seguir.
É por isso que de vez em quando lá vem um governador do Bundesbank refilar com esta política "folgada" do BCE.


Se a Grécia ou Portugal saírem do euro, as suas quotas no BCE terão que ser redistribuídas pelos restantes membros e as perdas decorrentes da sua saída terão que ser também distribuídas. Um fenómeno destes criará uma enorme pressão sobre o Bundesbank, sobre a opinião pública alemã e sobre todo o sistema político europeu.


Desta forma a Europa continua a empilhar dívida e a exigir cada vez mais compromissos entre países membros. A farsa só continua porque os países AAA continuam a passar "livranças" aos países mais fracos e estes pouco se importam.
Quando os políticos dos países ricos perceberem que estas medidas deixarão de ser temporárias para se tornarem definitivas e que poderão haver perdas reais, aí o cenário mudará.
Até esse dia chegar, os ricos que ainda julgam que têm muito a perder lá vão emprestando e acreditando que os pobres talvez se reorientem, e os pobres que não acreditam nessa reorientação (tipicamente os políticos gregos) exturquem tanto quanto lhes é possível aos ricos sem promessa alguma de pagar de volta. A isto chama-se transferência de riqueza e acumulação de tensão entre países e pessoas.

Mas foi o Bundesbank que "perdeu a paciência" na semana que passou. 
Exigiu ao BCE que futuros encargos financeiros assumidos em nome do Bundesbank tenham por detrás ativos  com maior notação financeira, ou seja, que dêem mais garantias ao Bundesbank que em caso de o dinheiro não ser devolvido pelos países pobres, pelo menos se minimizem essas perdas com o confisco de ativos mais valiosos.
Eis o estado de coisas neste momento:
O BCE quer forçar os bancos nacionais dos países ricos a assumir responsabilidades com os pobres sem nada de jeito em troca.
Os ricos revoltam-se, os pobres calam-se porque lhes interessa!
No dia seguinte ao anúncio do Bundesbank, foi a vez do banco nacional austríaco referir que também alinhará na mesma direção.


 Veremos no que isto dá!

Tiago Mestre

Subsídios, lapsos - reminiscências da 3ª pedra no sapato

A velocidade com que certos acontecimentos se revelam deixam-nos de queixo caído.

Há apenas 4 dias referimos aqui que as declarações de um comissário europeu acerca da suspensão dos subsídios para funcionários públicos serviria de balão de ensaio para se perceber o que o governo estava a preparar. Julgávamos nós que estas afirmações eram uma forma de comprar tempo até o governo se lembrar de um alçapão jurídico que o "legitimasse" a não repor os tão prometidos subsídios.

Basicamente, ficou a ideia de que o comissário usou aquela velha tática de "apalpar terreno" para perceber a reação que viria do lado de lá.
Desta forma o governo sondava quase "de borla" a opinião pública portuguesa, podendo alterar a tempo o discurso.
Demasiada teoria da conspiração? Talvez, porque o que se passou de seguida é quase surreal e parecido mais com uma reacção química nuclear numa central japonesa do que com um ensaio controlado em laboratório.

Vitor Gaspar reconhece logo no dia seguinte que andou a "enganar" a malta durante meses com o seu ar solene e "amocional" acerca da vigência da troika em Portugal e respetiva reposição dos subsídios.

E logo a seguir Pedro Passo Coelho anuncia o tão esperado alçapão jurídico: os subsídios serão repostos gradualmente.
Ao referir este advérbio de modo sem a respetiva explicação (qual é a graduação), fica a sensação de que os subsídios NÃO serão repostos.

Este tipo de afirmações assemelham-se mais a um estado de desespero e sobrevivência política do que em querer "salvar" a nação e resgatá-la das trevas em que se encontra.

Pelos vistos o alçapão jurídico já estava idealizado e não era preciso comprar mais tempo nenhum (aqui no Contas ainda nos surpreendemos pela nossa ingenuidade). Só faltava apresentá-lo à população, e de que forma? Da mais cobarde:
Usa-se um comissário de Bruxelas ou Estrasburgo para servir de testa de ferro e depois lançam-se umas atoardas, ora no parlamento por um ministro, ora numa entrevista radiofónica por outro, e siga pra bingo.
O plano de comunicação é mau porque tem requintes de perversidade conjugado com um modo desorganizado de fazer as coisas.
Qualquer cidadão compreende isso e não deixa de sentir algum nojo por este modus operandi. 


Assim será difícil a Passos Coelho e a Vitor Gaspar preservarem a credibilidade que granjearam por oposição ao executivo de José Sócrates.

O estado de graça está a esgotar-se. Agora é a doer.

Tiago Mestre

6 de abril de 2012

Moeda e política !

A propósito de um comentário nosso publicado no blog Portugal Contemporâneo, decidimos transcrever o comentário abaixo:

Uma moeda, qualquer moeda, deve significar uma forma de energia. Energia é a capacidade de realizar trabalho.
Se eu produzo cereais e apliquei energia no seu cultivo, o interessado em comprar deve-me pagar em função dos excedentes que possui (fruto da energia que ele despendeu), da importância que tem para ele a minha cultura e do valor energético que eu acho que a cultura possui.

1ª conclusão:
Os mercados já existiam antes sequer de haver moeda.

E se o comprador não tinha excedente naquela altura, mas só daqui a 1 mês, poderia ficar a dever caso o vendedor aceitasse.

2ª conclusão:
Já havia crédito antes de haver moeda.

A moeda apareceu como mecanismo fácil, portátil e fiável de transferência e preservação de energia face às dificuldades de transporte, preservação e troca de bens excedentários.

Mas este esquema só funcionaria se fosse credível aos olhos de toda a gente. Para tal deveria possuir um valor intrínseco que, contabilizado em função do seu peso e da matéria prima de que era constituída pudesse representar uma dada quantidade de energia: valor.

O ouro, pelo facto de ser difícil de obter, fácil de trabalhar e de manter a sua cor dourada sem sofrer nem com a oxidação nem com variações de temperatura, foi talvez o primeiro metal de que os seres humanos se lembraram para representar energia e valor.

Tem sido assim durante milhares de anos. Penso que data de 3 ou 4 mil anos AC as primeiras formas de crédito e de moeda na Suméria.

Mas a 13 de Agosto de 1971 passámos do mundo real para o mundo virtual: Nixon suspende (temporariamente, disse ele. Faz-me lembrar a história agora dos subsídios em Portugal) a convertibilidade do dólar em ouro (35 dólares por cada onça), decisão que tinha sido tomada em 1945-46 nos acordos de Bretton Woods. Nesta reunião, os EUA, na mó de cima por terem ganho a guerra e salvo a Europa do jugo nazi, sugeriram ao mundo ocidental que era preferível guardarem dólares em vez de ouro. Os EUA seriam fiéis depositários do ouro e pagariam juros às nações que preferissem dólares, já que sobre o ouro não se pagariam juros nenhuns. A proposta parecia irrecusável, e assim foi.

Mas com a década de 50 e de 60, a tentação dos políticos americanos em financiar guerras, ir à Lua, e outras extravagâncias que tais fê-los gerar deficits nos seus orçamentos, e às escondidas do mundo começaram a imprimir dólares sem acautelarem os rácios de ouro que se exigia.

Charles de Gaulle em França topou a aldrabice e antes que o dólar perdesse valor aos olhos de todo o mundo, enviou os dólares de volta para os EUA para receber o ouro com o tal rácio de 35 dólares a onça. A propósito, Salazar era um desconfiado por natureza, e com os americanos era ainda mais. A ver-se pelos excedentes orçamentais e pela quantidade de ouro que o Estado Novo acumulou ao longo de décadas, Salazar não caiu na esparrela, e quer se goste dele ou não, o homem teve razão nesta matéria.

Moral da história:

Os políticos manipularão sempre, mas sempre as moedas. Foi assim no império Romano, com a moeda Denariu e com muitas outras, como foi na América, na República Alemã de Weimar, no Zimbabué, na Argentina, em Portugal nos finais da década de 70 e 80 e mais recentemente com o banco central europeu.

A tentação de "fazer" dinheiro é muito grande para os políticos parolos que são tudo menos estadistas, e que em vez de usarem a inteligência para reforçar o código moral, lá concebem estratagemas para aldrabar o sistema, quer seja com ouro, prata, papel, ou mais recentemente, com os computadores.

Fiat vs padrão ouro?
Prefiro padrão ouro apenas pela razão de que é mais difícil aos políticos aldrabar o sistema, apesar de que o iriam fazer com toda a certeza.

Para terminar:

Se voltássemos ao padrão ouro, agora que estamos inundados de papel moeda virtual, veríamos o preço do ouro disparar para valores que não sei calcular e o valor das moedas fiat cairia tb para valores sem explicação.

Relembro que só o mercado de derivados, de acordo com o BIS, já ronda os 800 a 900 triliões de dólares e o PIB mundial não ultrapassa os 80 triliões de dólares!!

Teríamos que dividir toda esta gigantesca massa monetária pela quantidade de ouro que existe e que existirá nos bancos centrais. Por cada onça teriam que "caber" muitos dólares e muitos euros.
Tb é verdade que muitos destes mercados derivados colapsariam e o valor dessas apostas evaporar-se-ia de um segundo para o outro.

Se é possível regressar ao padrão ouro? É.

Se é provável?
Acredito que sim, não tanto pela ação afirmativa, mas mais pela inação, ou seja, os políticos continuarão a imprimir dinheiro até que este se torne pouco mais do que papel pintado, o sistema cai de maduro, e aí, pessoa a pessoa, aldeia a aldeia, cidade a cidade, país a país, cada comunidade saberá inventar um meio de transferência e preservação de energia adequado à sua realidade.

Quais serão esses meios? Não sei.

Serão muitos e diversificados?
Sim, nuns sítios do planeta teremos a prata como padrão, noutros o ouro, noutros o cobre, noutros terra fértil, noutros os cereais, noutros o "good and old" sistema fiat, etc, etc.

Tiago Mestre

5 de abril de 2012

4ª pedra no sapato - suspensão de reformas antecipadas ficou escondida uma semana!

A 29 de Março o conselho de ministros aprovou a suspensão das reformas antecipadas. A conferência de imprensa que se sucedeu, em momento algum referiu esta decisão. Esperou-se uma semana em total sigilo, e agora Cavaco Silva aprova o diploma para ser publicado num feriado.

Todo este sigilo sugeriu a vontade do governo em não permitir uma corrida a reformas antecipadas. Percebemos a atitude do governo mas não a podemos aceitar:

Mais abjeção moral.

Por culpa própria, o governo cava a sua sepultura, dia após dia.
Para nosso agrado, os portugueses ainda se sentem revoltados com a falta de moralidade nos comportamentos dos políticos. A Nação está salva!

Tiago Mestre

Lei do enriquecimento ilícito - Inconstitucional - a 3ª pedra no sapato no espaço de uma semana

Oops, no espaço de uma semana este é já o terceiro post aqui no Contas que aborda a inconstitucionalidade de algumas medidas que o governo quer implementar.

Apesar da pertinência da questão, nunca suspeitámos que em poucos dias, 3 medidas do governo fossem questionadas quanto à sua constitucionalidade.

Mas tal frequência apenas reforça a nossa convicção acerca do modo atabalhoado/perverso com que o governo quer implementar reformas no sistema sem acautelar a constituição.

Numa situação "normal", com a notícia de ontem acerca da inconstitucionalidade da lei do enriquecimento ilícito, a ministra da justiça já deveria estar hoje a arrumar a secretária.

Nós aqui no Contas fomos acompanhando mais ou menos o processo pelos meios de comunicação e vários foram os especialistas na matéria a alertar para a sua inconstitucionalidade, o PS a dizer a toda a gente, enquanto era governo e já depois na oposição, que a inversão do ónus da prova seria inaceitável à luz dos direitos consagrados na Constituição,
Até Marinho e Pinto, bastonário da ordem dos advogados, não sendo juiz e muito menos do Tribunal Constitucional, evidenciava já em 2009, ainda com o PS no governo, nas Comissões de Justiça do Parlamento que tais propostas de lei violavam sem apelo nem agravo a Constituição portuguesa. Chegou mesmo a apelidar de aberração jurídica esta proposta. Oops..

A ministra não se pode queixar de não ter ouvido versões diferentes, logo deve assumir por inteiro a responsabilidade desta decisão do TC.

Aqui no Contas, independentemente da nossa opinião sobre a matéria que está a ser legislada, continuamos na nossa "teimosia":

SE O GOVERNO QUER APLICAR REFORMAS QUE CONSIDERA ESSENCIAIS MAS QUE CHOCAM COM A CONSTITUIÇÃO, DEVERIA TRATAR PRIMEIRO DE A MUDAR, E SÓ DEPOIS SE LEGISLARIA.

COMPETE À ASSEMBLEIA MUDAR A CONSTITUIÇÃO, E SE ESTA CHUMBAR AS ALTERAÇÕES PROPOSTAS, ENTÃO SÓ HAVERIA UM CAMINHO A SEGUIR PARA O GOVERNO:   DEMITIR-SE

Como não propuseram nesta legislatura a alteração da Constituição, ficou-se por saber se esta seria aprovada ou chumbada, e se com isso o governo manter-se-ia em funções ou não. Preferiram antes arranjar semântica jurídica para tentar contornar a Constituição e manterem-se no poder.

Só para recordar as 3 pedras no sapato:
1. Supressão de subsídios aos funcionários públicos a tender de temporária para definitiva
2. Lei laboral já aprovada no parlamento. Segue para o Presidente da República e... Tribunal Constitucional
3. Enriquecimento Ilícito já chumbado pelo Tribunal Constitucional

A ferida já sangra.
Muita vergonha a pairar nas próximas reuniões do conselho de ministros.

Quando esquecemos os princípios, a ética e o modo correto de fazer as coisas, normalmente as consequências das nossas ações voltam à origem para nos assombrar. E assim atormentamos as nossas vidas e as dos outros.

Tiago Mestre

4 de abril de 2012

ESPANHA E PORTUGAL - IRMÃOS IBÉRICOS

Caros leitores e leitoras, se hoje Portugal recorreu aos mercados de dívida e lá conseguiu obter umas massas, o mesmo não se pode dizer da Espanha.

Portugal endividou-se com bilhetes do Tesouro, papel que apresenta muito menos risco por possuir maturidades curtas e por se considerarem como estando fora de possíveis reestruturações/incumprimentos.

Os bilhetes de Tesouro da Grécia, por exemplo, não foram incluídos na reestruturação. As obrigações essas sim, é que foram reestruturadas.

Além disso, as maturidades em que Portugal se endividou (6 e 18 meses) estão cobertas pela maturidade a 3 anos do mega-empréstimo LTRO de quase 900 mil milhões de euros que o BCE concedeu aos bancos privados, sobretudo os de países periféricos.

Imaginem lá quem anda a comprar obrigações portuguesas? Os bancos privados portugueses.
E com que dinheiro? do LTRO, obviamente.

O negócio é espetacular para os bancos: endividam-se a 1% junto do BCE e emprestam ao estado português a 4,5 ou 6%, dependendo da maturidade.

Mas à Espanha calhou outra sorte. O leilão de dívida que hoje realizou englobava Obrigações do Tesouro e não Bilhetes do Tesouro. Além disso, as maturidades eram superiores a 3 anos, ou seja, superiores à do LTRO. Ooops, nestas condições os investidores espanhóis já pensam 2 vezes.

Resultado:
Dos 3,6 mil milhões de euros colocados a leilão, apenas 2,6 mil milhões foram vendidos. As taxas de juro subiram quase 1 ponto percentual (de 3,4 para 4,3%) nas obrigações com maturidade a 4 anos, face ao leilão anterior com a mesma maturidade.

O que se fica a perceber disto tudo?
Que o dinheiro injetado pelo BCE nos últimos meses foi uma manipulação grosseira, como já várias vezes referimos aqui no Contas, e que como em qualquer manipulação, surte um efeito positivo durante algum tempo, como uma droga, mas mais cedo ou mais tarde chega o dia da verdade.

Aparentemente em Espanha, o dinheiro "quente" do LTRO que serviu de mecanismo de liquidez no sistema durante estas semanas está a esgotar-se, e a ser verdade tal suposição, voltamos à vaca fria com que nenhum líder político quer lidar e que urge a todo o custo adiar:
A falência do sistema bancário e do Estado como instituição soberana devedora.


Se a Espanha se tornar este Verão no epicentro dos problemas da dívida soberana,  talvez essa seja a melhor oportunidade para Portugal se juntar e delinearem uma saída ordeira da UE, com moeda eventualmente ibérica (a discutir), igualdade de tratamento na saída dos acordos da UE, dissolução dos encargos financeiros para com o BCE e criação de um bloco ibérico que permitisse a afirmação de políticas conjuntas na área da agricultura, pescas, reestruturação da dívida, etc, etc.

Acima de tudo, livrar-nos-íamos do jugo político europeu e da sua ignorância para com a nossa cultura secular. Podemos ser diferentes dos espanhóis, mas em escala essa diferença não se compara com o povo germânico, celta, ou escandinavo.

Num ápice teríamos a Grécia e a Itália a fazer-nos companhia. Seria o fim da UE tal e qual como a conhecemos e dessa forma estancávamos esta hemorragia que se chama:

1. Drenagem de riqueza do país A (sul da Europa) para o país B (norte da Europa) por causa dos juros que temos que pagar;
2. Aquisição de ativos "tóxicos" pelo país credor B ao país devedor A, nomeadamente obrigações soberanas e empréstimos a bancos. Fenómeno que já deixa os governadores do Bundesbank com os cabelos em pé!

Este mecanismo de suposta "solidariedade" europeia é uma das maiores aberrações políticas/planeamento centralizado/keynesianismo que jamais alguém concebeu nesta vida e na outra. São 500 milhões de pessoas a serem comandadas por políticas gizadas nos gabinetes de meia dúzia de burocratas que se reúnem a cada 15 dias. Como podem eles conhecer todos os aspectos de todas as culturas e de todas as sociedades que compõem os 27 países da UE? Como não podem, é-lhes impossível ajuízar e legislar corretamente, e daí todas estas asneiras, como o tratado de Lisboa, as políticas agrícolas comuns, os subsídios para tudo e para nada, o endividamento sem regra, etc, etc.

É surreal que a população aceite este estado de coisas e é surreal que os líderes europeus não tenham a humildade de reconhecer que tal empreendimento é tão só incumensurável para a sua inteligência como para a sua capacidade de ação. Não é nenhum atestado de incompetência, mas antes reconhecer a nossa incapacidade de lidar com problemas que estão muito para além das nossas capacidades.

Arriscamos a especular que nem Jesus Cristo, mesmo com a ajuda de seu Pai, teria capacidade para conceber soluções de forma permanente para problemas tão complexos que só a sociedade consegue resolver nos biliões de decisões que toma diariamente.

Tiago Mestre

Subsídios de férias e de Natal consagrados na Constituição - mais uma pedra no sapato para o governo..

A 28 de Março publicámos um post referindo a questão da alteração da lei laboral, e como esta tentava contornar a constituição portuguesa.

Uma semana volvida e novamente a Constituição portuguesa coloca outra pedra no sapato do governo:

A suspensão de subsídios de Férias e de Natal não pode ser permanente, apenas temporária, mas face às exigências orçamentais que a troika impõe, alguém da Comissão Europeia já equacionou que o que é transitório pode muito bem vir a tornar-se permanente. O governo desmente, claro, mas serve apenas para comprar tempo. Ficamos a aguardar apenas que arranje um alçapão jurídico que contorne, mais uma vez, a Constituição portuguesa. Tem sido este o costume e não há sinais de mudança nesta matéria.

Nós compreendemos a vontade do governo em querer mudar qualquer coisa no domínio legislativo para que o país se torne, eventualmente, mais produtivo e menos gastador, ou algo assim parecido, mas a Constituição, para o bem e para o mal ainda manda qualquer coisa.

Se foi a Constituição que se tornou anacrónica ou impraticável, então que se mude a Constituição. Mas se o PSD/CDS não conseguir fazê-lo, por bloqueio do PS ou qualquer outro, somos da opinião que só há um caminho a seguir: a demissão do governo.

A política ao serviço do Estado serve para produzir leis, desfazer leis e respeitar a lei. Criar malabarismos e alçapões jurídicos revela pouca integridade da liderança e passa a ideia para os cidadãos de que os fins justificam os meios. Todos estes ingredientes somados promovem maior afastamento das populações para com o poder, menor respeito pelas leis e maior revolta para com a classe política.

Tiago Mestre

3 de abril de 2012

Sober Look - mais um blog que nos ajuda a perceber o que se passa!

Caros leitores e leitoras, ficámos a conhecer mais um blog que nos informa e que nos ajuda a perceber o que se passa no mundo financeiro, monetário e económico:

http://soberlook.com

Tiago Mestre

2 de abril de 2012

Charles Biderman - economista e investidor que merece o nosso apreço

Alguém que temos acompanhado há alguns meses e que, presumimos nós, sabe do que fala.

Um economista e investidor que nos esclarece e ilumina sobre o que se passa no mundo financeiro e económico, sobretudo do outro lado do Atlântico. Publica videoblogs de 4-5 minutos várias vezes por semana.

http://trimtabs.com/blog/

Tiago Mestre

Vários líderes a dizerem a mesma coisa. Humm!

Caros leitores e leitoras, é preciso acompanhar com alguma regularidade as várias intervenções de vários líderes europeus, sempre em tempos diferentes, mas dizendo mais ou menos o mesmo, para se inferir que algo nos bastidores se cozinhou, e em grande.

Várias personalidades têm referido que há sinais positivos de que o pior da crise financeira já passou, e que a perceção dos investidores sobre o risco da dívida soberana tem diminuído consideravelmente, como se prova pela queda das taxas de juro exigidas no mercado secundário.

Toda esta conjugação de afirmações semelhantes só nos pode levar a pensar que o mago financeiro Mario Draghi, diretor do BCE, arriscou tudo, mas mesmo tudo, com as operações LTRO de empréstimo a 1% durante 3 anos. Qualquer banco que apresente colateral, mesmo que sejam obrigações classificadas como C, fica elegível para o tão desejado empréstimo.

Todos os líderes acreditam que estas operações estão a ter resultado, e realmente estão, mas injetar 1 trilião de euros num espaço de 3 meses na economia europeia sem crescimento à vista terá as suas consequências nefastas, só que como não é visível para já, deixa andar.

O que realmente acaba por destruir uma moeda é o somatório de muitas impressões, muitas decisões expansivas e muita criatividade financeira, durante muito tempo.

Injetar 1 trilião de euros num sistema financeiro recessivo e com muita dívida às costas é realmente um belo balão de oxigénio para que os bancos liquidem entre si os empréstimos que contraíram no passado e os que terão que contrair no futuro. Liquidam entre si mas ficam a dever cada vez mais ao BCE.

Não haja dúvida de que sendo o BCE um banco público, o risco que outrora havia entre bancos está sendo transferido em massa para o "nosso" banco.

E se realmente era esta a "tal solução", porque razão Jean-Claude Trichet não a aplicou quando a Europa implorava pela artilharia do BCE?
Trichet fez muitos abusos, nomeadamente com a compra de dívida soberana nos mercados soberanos, mas não estava preparado para aceitar de forma massiva tanto risco privado para as mãos dum banco público. Draghi, seu digno sucessor, não pensou duas vezes. A sua missão era livrar a Europa desta espiral de encontro com a sua realidade. E conseguiu! Para já.

Tiago Mestre

29 de março de 2012

Estado "compra" aos bancos a dívida das autarquias. Humm!

Mais abjeção moral:

Estado decide "adquirir" créditos que os bancos concederam às autarquias. E com este passe de mágica se  transferem 2 mil milhões de euros de risco bancário para o setor público. E o que tem o português contribuinte a ver com a dívida das câmaras? Nada, mas graças à (falta) de moral da classe política, a fatura fica mais uma vez do lado do "tuga".

Se os bancos emprestaram sem regra, então deveriam sofrer as consequências desses maus investimentos. É assim na vida das empresas e na nossa vida.

Mas a classe política gosta de desafiar a realidade, deve dar "pica", ou seja:
Quem cometeu asneiras e não se portou bem... é salvo... à custa de quem? Do cidadão contribuinte que desconta todos os meses e que nada tem a ver com o assunto.

Na hora da verdade, os políticos cedem sempre, sempre. É mais forte do que eles. Ninguém quer presenciar o cataclismo que a verdade dos factos exige, e portanto adia-se o que não se consegue suportar.

Moral Hazard à portuguesa

Tiago Mestre

28 de março de 2012

Alteração ao código laboral e sua inconstitucionalidade

Ouvíamos esta manhã no noticiário da Antena1 um especialista em matéria laboral acerca da proposta do PSD/CDS. E o que referia o tal especialista?
- a proposta viola a constituição portuguesa;
- o modo como foi feita revela uma forma de fazer leis que tenta contornar a constituição, sem a contradizer de forma evidente;
- tal requinte jurídico só poderia vir de gabinetes de advogados afetos ao governo, com ampla experiência na execução deste tipo de "propostas" de lei.

Gostámos do que ouvimos, contudo o sr. especialista-de-quem-não-nos-recordamos-o-nome já vem atrasado, e talvez por ingenuidade é que ainda revela uma opinião destas.

A Constituição refere que não é permitido despedimentos sem justa causa. Esta proteção jurídica tenta favorecer empregado e desfavorecer empregador, como tentativa de repor algum desequilíbrio natural na relação contratual entre estas 2 entidades.

Compreendemos a (boa) intenção da lei, mas quem anda nesta vida das empresas sabe que em tempos de prosperidade esta regra é supérflua porque o empregador que tem trabalho a mais necessita sempre de empregar, desde que as exigências do trabalhador não coloquem muito em causa a rentabilidade dos negócios.

Em tempos de declínio a regra ou atrapalha ou não é cumprida, porque se o empregador perde trabalho, ou força alterações unilaterais de contratos, ou despede por mútuo acordo ou não despede por falta de dinheiro, deixando arrastar a empresa até à falência e aí não pagar a ninguém: nem a empregados, nem a fornecedores, nem ao estado. Esta última opção é talvez a preferida da maioria dos empresários.

São estas as táticas vigentes.

A regra constitucional de impedir o despedimento torna-se assim uma banalidade jurídica, apesar da boa intenção que esconde por detrás.
Quando a vontade jurídica está muito distante das vicissitudes da realidade, é a força das leis que fica SEMPRE a perder, com a respetiva descredibilização do próprio sistema.

Se o governo quer alterar a lei laboral para flexibilizar despedimentos e contratações, mas está blindado pela constituição, o que deveria fazer era propor a alteração da constituição ao parlamento. E se tal desígnio fosse chumbado, a demissão do cargo seria a única opção digna.

Mas como tal rigor de princípios é hoje uma quimera moral bem distante, Passos Coelho e Álvaro atalham caminho e tentam atropelar, mas sem ferir, a constituição portuguesa, arranjando estas alterações ao código do trabalho que jogam na fronteira dos limites da constituição.
Esta é a política do desenrasca, do compromisso e da abjecção moral.

Siga pra bingo. O que é preciso é fazer coisas, agradar à troika e receber o dinheirinho que tanta falta nos faz!

Tiago Mestre

27 de março de 2012

O Porto é uma nação!

Caros leitores e leitoras, a cidade do Porto, respetiva autarquia e presidente eleito têm sido um exemplo para Portugal em como se pode reduzir despesa e dívida pública em simultâneo com a reorganização da cidade.

A cidade do Porto transformou-se, e se hoje foi consagrada como o melhor destino turístico na Europa em 2012, tal deve-se a um trabalho nos bastidores, sem alarido e de forma empenhada durante anos.

Quem conhece o Porto desde há vários anos é impossível não reparar na afluência de novos turistas, no movimento das galerias Paris ao fim de semana e no vibrar de novos projetos em cada esquina.

O Porto e a região norte estão hoje num patamar de maior sustentabilidade, tanto social, como até alimentar, do que o resto do país. As hortas e os pequenos quintais proliferam, revelando que a ligação com o passado rural não está esquecido. Em tempos adversos e em que o dinheiro escasseia, a sociedade manter-se-á tanto mais unida quanto mais as relações se fortalecerem e o espírito de entreajuda floresça.

A vida excessivamente urbana, como no caso de Lisboa, esquece que sem dinheiro pouco ou nada se pode fazer. Este é talvez o maior drama que os novos pobres urbanos enfrentam, e sem dúvida que a força da comunidade revelar-se-á muito mais débil.

Parabéns ao Porto e àqueles que silenciosamente têm tornado a cidade mais sustentável e com menos dívida.

Tiago Mestre

23 de março de 2012

Os gregos saberão como recuperar a dívida que os alemães contraíram por terem invadido a Grécia na 2ª Guerra Mundial

Grécia: civilização milenar, muita história, muita cultura, e muita sabedoria.

A 5 de Fevereiro publicámos um post que refletia acerca das capacidades dos gregos em jogar poker económico com a União Europeia. O sucesso tem sido retumbante, e não fosse uma economia tão estragada pelas políticas europeias e pelo dinheiro barato europeu, ainda acreditávamos que a Grécia seria o grande vencedor do concurso.

Basicamente, a civilização helénica especializou-se ao longo de milhares de anos em fazer bluff!
A Alemanha, nação bélica, lógica, racional e organizadora, não compreende este modo de jogar. Para os alemães, a "mão" mais forte é aquela que deve ganhar, ponto final.
Para os gregos, a "mão" só é forte se for acompanhada de uma grande dose de bluff, a tal ponto que um péssimo conjunto de cartas se pode tornar rapidamente numa "mão" espetacular.

No dia em que os gregos jogarem sem bluff, bye bye civilização helénica.
No dia em que os alemães jogarem com bluff, bye bye Wagner.

Como é do conhecimento geral, supostamente a Grécia reclama uma dívida à Alemanha pelos estragos da invasão na 2ª Guerra Mundial. 70 anos volvidos, a dívida será realmente liquidada, mas não da forma que os alemães previam.


Tiago Mestre